sábado, 21 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Daniela Labra

Daniela Labra
Daniela Labra é curadora independente e crítica de arte. Doutoranda em História e Crítica de Arte pelo PPGAV/EBA, UFRJ. Autora do livro Wanda Pimentel, Museu de Arte Contemporânea, Niterói. Responsavel pelo Artesquema. A participação de Daniela nos faz entender um pouco mais do papel do curador na arte. Agradeço a Daniela por interromper suas inumeras atividades para dar seu depoimento para Conversando sobre Arte.


Você poderia contar um pouco da vida pessoal?
Nasci em Santiago do Chile, em 1974. Vim para o Rio de Janeiro aos 2 anos de idade com minha mãe, e hoje sou brasileira de alma. Só que moro há 35 anos no Brasil e não voto - por que a carteira de identidade ainda é de estrangeiro...

Como se deu seu envolvimento com a arte?
Minha primeira paixão foi pelo teatro, aos 9 anos de idade no colégio. Dali, entrei para uma escola de atores que frequentei até os 16 anos. Atuei em algumas produções teatrais adolescentes e fiz faculdade de teoria do teatro. Quando estava no final da faculdade, porém, comecei a me cansar do modo operacional do teatro e comecei a me interessar por conhecer vídeo arte. Nessa época conheci o trabalho da artista francesa Orlan durante uma aula, e aí fiquei muito intrigada com essa produção de performance arte que era tão distante do teatro convencional e tão estranha. Minha monografia de final de curso foi sobre Teatro Contemporâneo e Performance Arte, a partir da obra do diretor Gilberto Gawronski. Desde então, meu interesse por arte contemporânea só aumentou. Fui para Madrid fazer um curso de especialização em Comunicação e Arte, e anos depois estava em São Paulo trabalhando em boas galerias comerciais, fazendo mestrado em Artes na Unicamp. Naquele mesmo momento eu integrava o grupo de jovens críticos do Centro Mariantonia/USP, sob coordenação do prof. Lorenzo Mammi. Fazíamos encontros semanais para discutir textos teóricos de arte e aprender a escrever para os catálogos da instituição. Após um tempo o grupo, com o apoio de Lorenzo, fundou a Revista Número (2003-2010), que formou uma geração de novos críticos super atuantes hoje em dia.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Acho que muitos artistas me influenciaram e continuam a influenciar. Cada pesquisa que a gente conhece pode fazer com que nosso pensamento mude um pouquinho, olhe para outra direção, nos faça repensar coisas. Aprendo muito com os artistas que estudo e que acompanho o trabalho.
Mas, num primeiro momento poderia indicar a supresa transformadora que foi conhecer a obra de ORLAN, STELARC, Tony Oursler, as vanguardas americanas do Pós Guerra, a Bauhaus, Botticelli, Bosch, a pintura flamenca, Peter Greenaway, Jorge Luís Borges, o diretor Renato Cohen, Lygia Pape, além de Bach, a soul music e a música eletrônica nos anos 1990.

Como não há cursos oficiais para curadores, como deveria ser a formação artística, acadêmica e cultural deles?
No Brasil já há cursos, porém em São Paulo. Eu fico só me questionando para onde irão esses curadores profissionais em um sistema que ainda carece de tanta atenção, especialmente no que diz respeito às instituições culturais.... Mas, enfim, creio que a formação desse profissional deve ser a mais atenta possível aos movimentos culturais de sua época, especialmente se pretende trabalhar com arte atual. Há curadores que se especializam em século 19 ou primeira metade do século 20, e aí a vivência se dá através dos livros e de visitas a acervos do período. No caso do contemporâneo, é essencial o contato com a obra e também teorias atuais e de período já historicizados. Deve-se ver de tudo, até o olhar ir se apurando: das exposições mais blockbusters às mais independentes. E também estar atento às transformações do mundo na esfera da Cultura como um todo.
Minha formação foi interdisciplinar e isso reflete no tipo de trabalho autoral que desenvolvo. Creio que a formação do curador irá refletir nas suas linhas autorais.

A curadora Lisette Langnado considera que um artista possa ser curador desde que tenha um background crítico. O que você pensa sobre o assunto?
Concordo com a Lisette. Há cada vez mais artistas que desenvolvem curadorias.

Do ponto de vista histórico qual é o papel do curador no desenvolvimento da arte contemporânea?
O curador trouxe a questão da tematização das exposições, e por sua vez o procedimento de formatar determinado pensamento ou teoria como embasamento de uma mostra de arte.

Você se inspira em algum curador?
Não. Mas admiro muito o trabalho teórico-prático de alguns como Ivo Mesquista, Fernando Cochiaralle e Paulo Herkenhoff.

De que maneira vive um curador?
Como um especialista que integra um setor da economia da cultura e ajuda a educar o olhar e o intelecto de cidadãos. Não é fácil mas é apaixonantente.
Que diferenças você encontra na curadoria de uma exposição individual e em uma coletiva?
Na primeira, todo o processo pode ser compartilhado com o artista. Há uma troca parceira pois o tema da exposição é geralmente sobre esse artista e sua própria pesquisa; No segundo caso, o grupo de artistas deve ser escolhido de acordo com um eixo de discussão, ou temático. Os projetos são discutidos separadamente com cada artista a partir desse eixo, e o curador faz um projeto final de acordo com as obras a serem apresentadas.
Que critérios você utiliza para selecionar um artista?
Depende do projeto. Em geral, é adequação à proposta que elaboro, e então procuro ver a consistência da pesquisa e trajetória do artista.

No livro Ice Cream (Phaidon), os 10 curadores reunidos concordam com a pressão do mercado (galerias) na produção dos artistas e na organização de mostras importantes. Qual sua opinião?
Sim, isso existe, mas o mercado é algo com o qual precisamos lidar bem. Não é o lugar da pesquisa e da reflexão teórica; é o espaço da venda. E no Brasil, também é espaço de formação de público. Creio que galeria que se destaca é a que consegue incentivar o lado pesquisador do seu artista e vender seus produtos nesse meio comercial. A obra de arte encarada como produto é algo muito difícil de lidar, por que é duro, parece brigar com o tempo vagaroso e concentrado da criação poética. Mas é fato que deve ser visto como uma faceta do sistema das artes que envolve muito dinheiro e atores poderosos, que de certo modo decidem quem são os grandes artistas. Por outro lado, eu não acredito em farsas duradouras. Um artista com pesquisa medíocre não se sustenta nesse meio por que há também gente muito preparada por detrás de todo esse mercado da arte contemporânea globalizada.
Para alguns, a proliferação das Bienais é fator de decréscimo da qualidade das obras produzidas. O que você pensa sobre isso?
Não creio que atinja a qualidade das obras especificamente. O que ocorre é um problema de ordem maior, de "bienalização" - e agora a "feirização" do mundo, que diz respeito a um projeto de internacionalização da localidade que tem uma Bienal ou feira de arte. E assim, ocorre um certo direcionamento do discurso artístico por tendências estéticas movidas por atores poderosos que integram o sistema da arte, e que terminam por padronizar uma arte que seria "internacional" ou "global" . Mas o assunto é extenso...

O venezuelano Luis Perez Oranas será o curador da próxima bienal de São Paulo. Foi uma escolha acertada?
Sim, por que não seria? É um homem muito preparado e conectado com o mundo da arte internacional, incluindo a produção de arte moderna e contemporânea brasileira.

Quais são suas atividades preferidas para as poucas horas livres?
Ficar com minha famíliar, viajar e fazer programas culturais descompromissadamente.


http://www.artesquema.com




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daniela labra
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+ 55 21 9317 7140
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