quarta-feira, 18 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Daniel Pellegrim


Daniel Pellegrim




Daniel, fale algo de sua vida pessoal.
Tenho trinta e seis anos, nasci em Marialva, norte do Paraná. Mudei-me com a família para Cuiabá, MT, aos 12 anos (1986). Sou formado em Direito (1998) e atuei como produtor cultural de 1998 a 2003, quando então concluí a especialização em Planejamento e Gestão Cultural e mudei-me para Chapada dos Guimarães. Nessa cidade, implantei uma Galeria de Arte (2003/2008) como resultado da especialização e exerci o cargo de secretário municipal de cultura, turismo e meio ambiente (2004/2008). Sou casado e tenho uma filha de quatro anos.

Como você se envolveu com a arte?
Assim como muitos artistas, foi na infância, observando, desenhando, brincando, etc, porém a motivação para me profissionalizar aconteceu em 1998, quando fui selecionado para as coletivas: XVII Salão Jovem Arte Mato-grossense e II Salão Plástica Amazônia.

Qual foi sua formação artística?
Sou autodidata, contudo fiz alguns cursos (gravura em metal, arte digital, serigrafia) e também planejei e geri exposições e festivais de artes integradas. Nesses trabalhos, pude conviver e trocar informações com artistas de diferentes áreas.

Como você descreve sua obra?
Minhas obras são criadas a partir do gesto livre, da observação e da experimentação. Interesso-me por todo tipo de grafismo, arte experimental e figuração livre. Complexifico as obras com repetições, rearranjos, possibilitando múltiplas interpretações.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Do ponto de vista histórico, alinho-me com artistas que participaram de movimentos como: Dadaísmo; Surrealismo; Pop Art; Arte Conceitual; Grafitti e Toy Art. Pude perceber estudando a história da arte que meus desenhos possuem padrões de diversas origens e misturam aspectos modernos como os observados na obra do catalão Joan Miró (surrealismo abstrato), no cubismo do pintor francês Jules-Fernand-Henri Léger, que teve forte influência no modernismo brasileiro (Tarcila do Amaral, Vicente do Rego Monteiro, etc), na abstração biomorfa da última fase de Wassily Kandinsky, com a arte tradicional presente nas ornamentações dos Vinkings, dos Celtas, dos Incas, muitas vezes com cores e traços que nos remetem ao artesanato marroquino, aos azulejos mexicanos, aos arabescos andaluzes, aos enlaces do barroco e do rococó, aos tapetes persas e ao grafismo indígena brasileiro. Se fosse para eu escolher apenas três nomes escolheria Joan Miró, Pablo Picasso e Andy Warhol. Hoje em dia Jeff Koonns, Takashi Murakami, Franz Ackermann, Banksy, entre outros, dão novo fôlego ao movimento pop contemporâneo.

Desenho, pintura, fotografia e escultura, como elas se ligam? Alguma preferência?
Não tenho preferências, nem preconceitos técnicos, o que vale é a obra, os processos de criação. O trabalho pelo viés da experimentação me possibilita desenvolver diversas linguagens, não é necessário que elas tenham ligação umas com as outras, contudo podem se articular, por exemplo, por meio de uma instalação – hoje, tenho me dedicado mais às instalações, muito embora ainda não tenha conseguido mostrá-las.

O que você pensa das Bienais e Feiras de Arte?
Mesmo com todas as críticas são dois tipos de eventos diferentes e muito importantes no mundo da arte. As Bienais costumam legitimar artistas e tendências através de determinado perfil de seleção, dando a eles grande notoriedade. Já as Feiras de Arte buscam selecionar galerias que representam artistas com liquidez de mercado, o foco é a comercialização. Muitas das obras selecionadas para Bienais também vão para o mercado, mas acabam sendo incorporadas em acervos de grandes museus e coleções abertas ao grande público, diferentemente das Feiras de Arte, onde o público consome a produção que fica, de modo geral, em pequenas coleções, no âmbito privado.

Qual foi sua exposição mais importante?
Não sei avaliar. Contudo, hoje, vejo que a exposição “Objeto Encontrado”, que fiz através do Circuito Cultural Banco do Brasil, em 2001, estava sincronizada com a produção dos grandes centros de arte. Para esta exposição utilizei um processo de experimentação onde digitalizo pequenas instalações montadas sobre o scanner e faço a ampliação das imagens em telas. Na época, poucas pessoas compreenderam a produção em Cuiabá, mas esteve lá Gilberto Chateaubriand que me vendo perguntou: “O que você está fazendo aqui?” E comprou três trabalhos para sua coleção.

Você pode falar sobre o Pellegrim Studio Galeria?
Hoje é apenas um silencioso recanto ecológico, meu ateliê. Depois que fechei a Pellegrim Galeria de Arte, no centro de Chapada dos Guimarães, em 2008, tentei transformar meu estúdio em galeria, fiz alguns eventos por lá, mas confesso que as constantes visitas faziam diminuir meu ritmo de trabalho.

Você começou sua carreira em Cuiabá e agora está em Brasília, como está o desenvolvimento da arte contemporânea nessas duas cidades?
Nas décadas de 1960 e 1970 o poeta visual Wladimir Dias Pino (Poesia Concreta, Intensivismo, Poema Processo), juntamente com o poeta Silva Freire, entre outros, começaram a fazer um movimento nessa direção em Cuiabá, contudo na década de 1970 a UFMT priorizou o fomento à arte popular através da implantação do MACP (Museu de Arte e de Cultura Popular). Hoje Cuiabá reinicia este diálogo através do Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea (UFMT) e de ações e eventos no antigo Palácio da Instrução, mas ainda com poucos representantes, sem galerias ou museu especializados em arte contemporânea. Brasília, Goiânia e Anápolis formam o triângulo mais desenvolvido do Centro-Oeste. Em Brasília a UnB através do IdA (Instituto de Artes) é o principal motor no desenvolvimento da arte contemporânea. Brasília é bem equipada com bons espaços institucionais (CCBB, Museu Nacional, Caixa Cultural, Espaço Ecco, Funarte, etc) e recebe grandes exposições. Mas é importante frisar que os colecionadores parecem consumir mais arte moderna e popular, por isso as pequenas Galerias de Arte se arriscam pouco na apresentação de novas linguagens.

Quais são seus planos e projetos para o futuro?
Ampliar a produção, popularizá-la e prosseguir com os estudos (mestrado e doutorado).

O que faz nas horas vagas?
Gosto de música instrumental, de descobrir novos conteúdos na internet, de passeios ecológicos, culturais e gastronômicos, de conviver com a família. Hoje, não tenho uma rotina de trabalho fixa, trabalho e tempo livre se confundem.


Sem título

Sem título

Caverna Aro e Jary e Stum
Guará
Exposição na Casa de Arte Lara Matana (2010) Texto abaixo.
Luk ti! Amelí.
Bena mi, Gee.
Guará! Stum
Pellegrim traduz na sua obra o regional e o nacional para além de qualquer fronteira.
Experimental, lúdico, pós-moderno, alia suas atuais inquietações estéticas as questões da toy art*. Uma versão da arte pop contemporânea que apresenta a “arte brinquedo”, um movimento que utiliza desde às técnicas da reprodução em série até a produção artesanal e que, híbrido, comporta tanto a urbanidade, a tecnologia, como o underground e o nonsense. Uma estética que se apresenta através de personagens exóticos que podem ser meigos, inocentes, violentos, subversivos, cômicos, satíricos e até heróicos ou eróticos. O objetivo é sempre, na ordem inversa, causar estranhamento, reação do fruidor, como assoprar e morder, ou vice-versa.

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