terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Daniel Bilac


Daniel Bilac Na abertura da exposição na Copasa 2010.

Conheci o trabalho de Daniel Bilac na Feira de Arte no Rio, apresentada pelo Lúcio Albuquerque da Galeria Celma Albuquerque de Belo Horizonte. Artista jovem faz sua primeira individual na ótima galeria mineira. Sua entrevista fala de sua formação e dos seus planos. Muito bom Daniel, obrigado e sucesso.

Daniel, fale algo sobre sua vida pessoal.
Eu não sou parente do Olavo. Com dez anos, fazendo um trabalho pra escola, descobri que tinha nascido no dia do aniversário dele. Mas também não é daí que vem o Bilac do meu nome. Meu avô paterno, que lutou na Segunda Guerra, resolveu batizar alguns filhos com sobrenomes de personalidades que ele admirava; a admiração virou herança, a herança virou coincidência quando chegou até mim. Achava que meu avô gostava do Príncipe porque era o príncipe dos poetas. Eu com dezessete, meu avô já era morto, comecei um jornal de literatura e poesia em que fui editor e ilustrador durante suas nove edições, distribuídas ao longo de seis anos. Ficou até bem conhecido aqui em Belo Horizonte, pingou pelo correio em outros lugares por aí. Com dezoito, na sala de espera do quartel, vi um retratinho do Olavo. A legenda dizia que ele era patrono do alistamento militar. E eu não fui soldado.

Como foi sua formação artística?
Bem, me interessei por desenhar desde sempre, e isso, por si só, já é o princípio de uma educação do olho e da mão. Mas minha formação de fato aconteceu principalmente na universidade. Em 2005, comecei o curso de Artes Visuais, então Belas Artes, na UFMG. E por causa do meu envolvimento com o jornal que eu mencionei, tinha também interesse por literatura e por design. Durante o curso, que durou dois anos e meio a mais do que o previsto, passei pelo desenho, pela pintura, vi alguma coisa de gravura, fiz uma ou outra coisa de fotografia. Essa diversidade, sobretudo a forma de amalgamá-las, é que passou a ser fundamental pra mim.

Que artistas influenciam seu pensamento?
O Rauschenberg e o Jasper Johns têm uma força de pintura que me deixa impressionado. O Basquiat tem algo parecido, bastante agressivo, numa conjugação com o desenho e com a palavra. O Cy Twombly é um mestre do espaço bidimensional, do despojamento, do mínimo da cor com a máxima potência e elegância: mão guache, olhos destros. O Tápies me chama a atenção por algo parecido, um gesto aparentemente bruto e desmedido, mas que não poderia ter sido nenhum outro; mais outra coisa para saquear. A Kiki Smith tem desenhos nuns papéis meio desarranjados, e as figuras não mentem esses papéis nem deixam serem figuras; isso me interessa muito. Também tenho uma fixação por uma obra em especial do David, O Marat assassinado, por muitos motivos. Entre eles, a maneira de insinuar uma história pelos indícios. E é claro, existem também os artistas da minha convivência. Com eles existe uma troca muito produtiva e valiosa também, não bastasse a amizade.


Além do estudo de arte o que ajuda na elaboração dos seus trabalhos?
Eu dependo muito do meu estado de ânimo; é algo de que sou refém. Assim, me ajuda tudo o que agita minhas paixões, que me deixa alvoroçado, ou ansioso, furioso ou imensamente feliz. Essa agitação vem se leio algo que me atinge, ou se ouço, ou se faz muito calor. E então é preciso também estar atento ao ateliê, porque é nele que tudo isso chega realmente a uma elaboração. A sujeira do ateliê, os pedaços de papel no chão, pedaços de outros trabalhos, tudo pode me ser útil para conformar a minha frase. Não sei se você vai achar uma resposta nisso.

Como você descreve seu trabalho como artista?
Por lidar com diversas técnicas e materiais ao mesmo tempo, fico numa ambigüidade entre desenho e pintura que me é muito cara. Elegi o papel como a minha casa e gosto da figura, do apelo que ela tem. Nos últimos anos, tenho trabalhado com um conjunto bastante restrito: cinco imagens de cães retiradas de um dicionário ilustrado que se repetem série após série. Um boxer, um dálmata, um dogue alemão, um pastor alemão e um pointer; ocupados apenas com a palavra para a qual têm que apontar. Eles não são alvo do meu afeto, eles sequer existem senão como idéia. E as idéias associadas a palavra cão me interessam: ternura e agressividade, segurança e perigo, fidelidade e incerteza. Enaltecidos e maltrados pelas tintas, lápis, manchas de gordura, colagens etc., essas figuras ora trazem a gravidade da existência animal, que nos é comum e tão estranha, ora um gosto bastante doce, piegas – não ingenuamente, mas forçosamente, como quando desenho um coração sobre a pelagem.

Você está realizando uma individual na ótima Galeria Celma Albuquerque, qual a sua expectativa?
Estou mostrando seis trabalhos de uma série de grande formato chamada quando eu disser seu nome; é um conjunto bastante especial pra mim. Expor é uma oportunidade excelente de ouvir o que as pessoas têm a dizer a respeito, e isso é amplificado pela visibilidade e pelo peso que a galeria tem na cidade. Entre outras coisas, essa exposição serve também para comemorar esse um ano e meio de trabalho na Celma, que tem sido muito gratificante.

O que você pensa sobre as Bienais e Feiras de Arte?
As bienais são a grande representação da Instituição e as feiras, do Mercado. Embora Instituição e Mercado protagonizem uma série de discussões e embora essas discussões sejam válidas para aperfeiçoar os formatos existentes, acho que não se pode perder de vista que bienais e feiras formam público, valorizam os envolvidos nos processos da arte e movimentam a economia a favor da viabilização da ate como atividade. Mas acho que ainda vou amadurecer minhas opiniões a respeito.

Você escreve sobre seu trabalho?
Escrevo, sim; não haveria como não escrever e faço isso com satisfação. É uma demanda da pesquisa na Universidade, dos editais de ocupação e também da comunicação com as pessoas, através de releases, matérias para jornal, entrevistas. Certos raciocínios se esclarecem quando se escreve; não todos, mas muitos. E escrevo também para o meu trabalho. Muita coisa se desenvolve a partir de frases anotadas; os títulos têm para mim uma importância muito grande e são construídos com cuidado também.

Você tem rotina de trabalho?
A cada dia, um leão diferente.

É possível viver de arte no Brasil?
Assim espero.

Quais são seus planos para o futuro?
Me interesso pela pesquisa na universidade e é algo que eu gostaria de intensificar num futuro próximo. Mas, por agora, quero ter um tempo para me dedicar integralmente ao ateliê que, para mim, é o centro de tudo.

O que faz nas horas vagas?
Jogo conversa fora com os amigos, bebo cerveja e café, namoro uma moça chamada Valquíria, às vezes compro um jornal, outras vezes vejo TV, pego alguma coisa na estante que eu já saiba de cór.



Eu não gosto de chuva / Eu sempre gostei de chuva Técnica mista sobre papel. 1,65x1,65 cm. (2010)

Eu não vou esperar para sempre Técnica mista sobre papel. 1,55x1,50 cm. (2010)


Quando eu disser seu nome Técnica mista sobre papel. 1,55x1,65 cm 2010



Paiol secreto Técnica mista sobre papel 1,80x1,30 cm (2010)


Setembro para não esquecer. Técnica mista sobre papel. 1,50x1,70 cm. (2010)


Eu não sou feito de ouro. (2) Técnica mista sobre papel 100x100 cm. (2010)


Eu não sou feito de ouro. Técnica mista sobre papel. 100x100 cm. (2010)


Rota incerta. Técnica mista sobre papel 100x100 cm. (2010)


Banco e jarra (2008)


www.galeriaca.com Galeria Celma Albuquerque.





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