domingo, 22 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Cris Mathias

Cristina, conte um pouco de sua vida pessoal.
Eu tinha em torno de 5 anos e morava num apartamento em Laranjeiras, no Rio. Meu pai me colocava no colo e me mostrava uns livros, eram três: as coleçôes do Museu do Prado, do Louvre e de Florença. Aquele era um momento muito próximo nosso e apesar de eu ser muito pequena me lembro com muita nitidez deles. estas visitas a estas coleções eram muito especiais para mim, eu depois de grande compreendi que era um momento muito afetuoso entre meu pai e eu e que ele estava me apresentando o mundo através das imagens. Comecei a pintar com 13 anos e ficava ansiosa nos dias em que ele me telefonava do trabalho dizendo que tinha comprado tintas para mim. Eu o esperava no portão e pulava emcima dele louca para ver aqueles tubinhos de le franc bourgeois que ele trazia do centro da cidade. Fui para o Parque Lage com 16 anos. naquela época, 1976, havia um galpão de madeira no terraço onde funcionavam as aulas de pintura. Aquele galpão cheirava a terebentina e mato e esta mistura ativa minha memória de uma forma muito especial. Um dia neste galpão me vi diante do desafio de pintar uma garrafa transparente. Eu me perguntava sobre como fazer aquilo quando olhei a garrafa e percebi que as cores estavam todas ali refletidas. Foi uma descoberta fascinante para mim e deste momento em diante passei a olhar o mundo como acredito que os artistas olham. Minha mãe tambem gostava de pintar e fazia algumas aulas comigo neste galpão. Esta referência familiar me estimulou. Pintar neste primeiro momento era a possibilidade de estar sózinha construindo minha própria visão de mundo tendo como referências estes afetos como incentivo. Mais adiante fui buscar técnicas e referências para construir uma linguagem própria.

Como foi sua formação artística?
Minha formação artística começa no Parque Lage com Pintura no final dos anos 70 e durante a década de oitenta nas oficinas de Gravura. Em 1980 entrei para Comunicação Visual na UFRJ mas foi no ensino informal que fui buscar referências e conteúdo para minha formação. Fiz cursos no MAM, no Museu do Ingá, em Niterói e viajei para outras cidades do Brasil para trabalhar com Gravura: São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Olinda, na escola Guaianases. No final da década de oitenta fui trabalhar como assistente do atelier de Pintura da Katie Scherpenberg, onde aprendi muito sobre Pintura e materiais. Museus, exposições, muita leitura, viagens e grupos de estudo ( na década de 80 eu participava dos grupos de estudo do Ricardo Basbaun) tambem fizeram parte do meu processo de formação. Comecei a dar aulas na década de noventa, num atelier que eu dividia com a Taciana Amorim, Brigida Baltar, Mara Martins e Amal Saad na rua Capitão Salomão em Botafogo. O convívio no atelier com outras artistas e alunos tambem foram muito importantes. Comecei a dar aulas em cursos de extensão da Faculdade Cândido Mendes, na Faculdade da Cidade, no SESC-Tijuca e também no atelier. No final da década de noventa entrei para o curso de Licenciatura na Faculdade Bennett para fazer uma licenciatura em Artes Visuais. Dei aulas em escolas do ensino médio durante 5 anos. Neste período participei durante um período de um grupo de estudos e discussão de trabalhos no atelier da Katie Scherpenberg e também com o Nelson Leirner.

Quem influenciou seu pensamento artítico?
Influenciaram meu pensamento a psicanálise Freudiana a princípio. Depois a terapia baseada em Winnicott passou a responder algumas questões da vida e também da Arte. Questões ligadas à casa, aos espaços da intimidade, das gavetas, dos armários e dos cofres e das coisas que estão dentro guardadas e que me levaram ao filosofo Gaston Bachelard. Fernando Pessoa e Clarice Lispector também me ajudaram a compreender um universo de imagens internas do ponto de vista da palavra e construção de textos que posso compreender tambem nas imagens. O processo de construção do arquiteto Antoni Gaudí e a idéia dos galpões de trabalho onde é possível juntar pedreiros, ferreiros, vidreiros,gesseiros e outros profissionais artesãos para a construção de uma obra. A Arte popular em maneira geral, espontânea e inventiva, aquela onde aparece a liberdade são sem dúvida parte do meu processo de formação da imagem.

Como você descreveria seu trabalho?
Meu trabalho é a maneira mais adequada e verdadeira que encontrei para falar.


Num determinado momento você deixou as Artes Plásticas em segundo plano e dedicou-se a criação de jóias, como as duas atividades se complementam?
É, na verdade eu não me afastei das Artes Plásticas para fazer Jóias. No final da década de 90 quando nasceu o meu filho eu estava muito ocupada dando muitas aulas. em função disso meu tempo para pensar meu próprio trabalho ficou pequeno demais e isto me sufocou. Quando meu filho nasceu há 15 anos comecei a fazer As Avózinhas e num determinado ponto compreendi que as questões que eu estava levantando não estavam muito claras para mim. O trabalho do meu ponto de vista é um processo desgarrado do tempo. Este processo precisa acontecer e creio que é preciso muita força para recolher e deixar que este processo ganhe vida e estrutura. O que fiz foi recolher mas o trabalho continuou, ele não para. E acredito que há o momento certo de levá-lo para o mundo. Percebi que eu não precisava estar presa a esta personagem de artista para que meu trabalho permanecesse em mim. Parei de dar aulas aos poucos. eu precisava parar pois não estava encontrando nada para dar aos meus alunos naquele momento. Parei para entrar no meu mundo e para isso promovi mudanças que me ajudariam a viver este processo. Comecei a fazer Jóias para ter um sustento. Mudei para Niterói e como fui nascida e criada na zona sul do Rio, pela primeira vez eu estava tendo uma espécie de olhar estrangeiro afastado das minhas origens e referênciasque me ajudou muito. Aproveitei este tempo para aprender a costurar, bordar, cuidar do meu filho, fazer porcelana, enfim, fui viver aquilo que eu estava falando através das Avózinhas e desta forma estruturar e entender o trabalho.

Como você vê a posição da mulher nas Artes Plásticas?
Eu vejo que as mulheres estão ganhando seus espaços e crescendo. Beatriz Milhazes, Adriana Varejão fizeram ótimas conquistas e representam a Arte Brasileira mundo a fora. Há outras com trabalhos muito bons que estão aí lutando e trabalhando muito para terem uma vida digna como artistas. Acompanho há muitos anos a vida de muitas que fazem o seu trabalho por pura e enorme determinação e sobrevivem por conta desta determinação e deste desejo de ser artista e se comunicar com o mundo através da sua produçâo. O mercado porém ainda está muito aquém de oferecer melhores perspectivas para estas artistas. Na verdade, as artistas sobrevivem impulsionadas por sua própria garra e nisso coloco os artistas em geral.

Você tem um filho adolescente, um marido é empresária, é possível compalibilizar todas as atividades?
A familia que construimos é fruto do nosso desejo. Marido e filho vem junto construindo este desejo. Quando escolhemos uma parceria através do casamento estamos escolhendo tambem a possibilidade de construçâo do sonho. Assim vivo o casamento, meu marido é a pessoa com quem dialogo e construo, meu filho sendo membro desta familia é mais um que soma e dialoga. Quando leio esta palavra conciliar eu imagino uma roda girando harmonicamente e tudo que é absorvido por esta roda acaba fazendo parte para que ele continue girando.


Como você se mantém atualizada?
Observando e selecionando as coisas que de fato e verdadeiramente vão interessar ao meu trabalho. Sendo objetiva e econômica nas minhas buscas e interesses. Cuidando do tempo para que ele seja confortável e me faça construir o que de fato interessa.

Além dos estudos específicos, o que influencia a obra de um artista?
O interesse pelas coisas do mundo, principalmente pelas coisas que estão fora dos guetos, das coisas que estão livres e que são lúdicas. E a poesia. Descobrir a poesia é do meu ponto de vista fundamental para a formação do artista.

Quais são seus planos para o futuro?
Ah!!! muitos e nenhum! Há momentos que imagino o futuro e me vejo fazendo isto e aquilo, logo me desprendo da idéia de futuro e me focalizo no presente porque sei que o que me instiga é sempre a surpresa do desconhecido. Há momentos de tanta magia que surgem do inesperado que prefiro estar a beira deles e não imaginar o futuro.

O que você faz nas horas vagas?
Canto!!! eu adoro cantar!




Atelier CrisMathias


Lojas on-line:
www.crisjoiasdebijus.com/
http://crismathiasjoiasebijus.elo7.com.br/


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Cris Mathias

A minha conhecida amizade e admiração por Cris Mathias me fez retardar o convite para participar de Conversando sobre Arte, pois poderia parecer uma ação entre amigos, mas não achei justo privar os leitores de conhecer melhor a mãe do Caio, a mulher de Luiz Henrique, a empresária, a artista e principalmente a mulher sensível. Junto com os agradecimentos fica minha admiração pela pessoa humana. Obrigado Cris.

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