sábado, 21 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Claudio Edinger

Claudio Edinger
Claúdio é um dos mais respeitados fotógrafos brasileiros. Autor de treze livros. Nascido no Rio, onde seu coração permanece. Vive e trabalha em São Paulo. Aproveitem a entrevista do artista, fotógrafo e escritor. Recebeu os prêmios Leica Medal of Excellence em 1983, 1985 e 1990. Em 1990, o Ernest Haas Award, o Higashikawa Award em 1999 e o Porto Seguro em 2007, 2010.
Livros publicados: Chelsea Hotel, Venice Beach, The Mankingof Ironweed, Carnaval, Madness, Old Havana, Cityscapes, Portraits, Vitória: cidade das ilhas, Rio, São Paulo: minha estranha cidade linda, De Bom Jesus a Milagres, Paris, Amazonas e Downtown.



Conte algo sobre sua vida pessoal.
Nasci no Rio de Janeiro em 1952 e com três anos de idade meus pais se mudaram pra São Paulo onde eu me formei economista em 1975.

Você é fotógrafo ou artista?
Para mim um artista é quem pesquisa, através de suas criações ou descobertas visuais, tentando entender o grande mistério: o que somos e o que estamos fazendo aqui. nesse sentido sou um artista. mas como minha pesquisa é feita através da fotografia, uma ciência que exige conhecimentos técnicos precisos, sou um fotógrafo. o têrmo fotógrafo tem sido mal empregado e confunde as pessoas que não estão familiarizadas com nossa arte. quando se diz escritor todo mundo sabe o que o cara faz... pintor também... escultor idem...

Como foi sua formação em fotografia?
Aprendi com um primo como ampliar fotos e com meu amigo Luiz Fernando Neves como revelar filmes. o resto fui desenvolvendo aos poucos. meu primeiro trabalho sobre o edificio Martinelli no centro de são paulo, foi no peito e na raça, usando filme Tri-X puxado para 1600 iso e papel Mitsubishi número 5 para fazer as ampliações. depois fui para Nova York onde estudei com Philippe Halsman o grande fotógrafo, que fez mais de cem capas da revista LIFE e inúmeros livros geniais - como o livro sobre o bigode do Salvador Dali.

Que artistas influenciam em seu pensamento?
Sempre li muito e praticamente todos os clássicos. esta foi minha formação básica. grandes escritores são fotógrafos do invisível, já que nos fazem imaginar e visualizar cenas e situações que existem em sua própria imaginação... depois me apaixonei pelos pintores espanhóis, Velasquez, o primeiro grande fotógrafo da história, que usou o recurso da camera obscura para pintar o Las Meninas, e também Goya e El Greco... adoro os impressionistas, que foram o começo de toda esta revolução horizontal da arte contemporânea. e claro, não tem como não citar os fotógrafos Nadar, Lartigue, Atget, Cartier-Bresson, Stieglitz, Steichen, Weston, Garry Winogrand, Gene Smith...


Como você descreve seu trabalho?
Meu trabalho é bastante autobiográfico, sempre me interesso por imagens do subconsciente, que acabam aparecendo quando fotografamos o que escolhemos fotografar. meus trabalhos pessoais, a partir de 1975, tem sempre muito a ver com quem eu sou, com o que mexe comigo, tudo isso me ajuda a entender um pouco mais qual é o motivo por trás de tudo isso aí. quando eu estudei filosofia pela primeira vez, em 1968, no segundo ano colegial, tudo começou a fazer sentido... eu queria o que os filósofos queriam, entender quem somos.

Você morou nos Estados Unidos durante 20 anos, como foi a experiência?
Foi um grande aprendizado. misturar a nossa criatividade com a eficiência deles é um caminho bastante interessante. nem tanto lá nem cá, um caminho do meio, uma terceira via genial... foi bastante difícil no começo, não conhecia ninguém, falava mal o inglês... mas com o tempo fui me acostumando... mas sempre soube que meu lugar é aqui... foi tipo um curso de pós graduação... meio longo mas foi...

Há uma cultura no Brasil sobre a obra em papel ser menos durável e, por isso mesmo, menos valiosa. Qual sua opinião?
Isso é bobagem. hoje tem fotos vendendo por três milhões de dólares!! e isso é só o começo... as fotos vão valorizar muito, como tem acontecido com a arte moderna e contemporânea... a fotografia ainda é uma arte muito nova... não temos nem 200 anos de idade...
claro que toda obra tem que ser preservada com inteligência, assim como toda casa, todo carro, todo quadro, tem que ser cuidado. mas com as ótimas impressoras que temos, melhorando a cada ano e com os excelentes papeis que estão aí, este assunto não é mais relevante hoje em dia.

Que dificuldades você vê para um jovem artista ser representado por uma galeria?
A cada dia surgem novas galerias. acho fácil para um jovem artista conseguir uma galeria, ou publicar um livro... só precisa ter um ótimo trabalho... é possível para um jovem artista desenvolver um ótimo trabalho? é óbvio que sim.

É possível viver de arte no Brasil?
É possível sim. e está cada vez mais possível.

Além do estudo de texto sobre arte, que outras atividades influenciam na formação de um artista?
Estudo é fundamental mas o principal mesmo, obviamente, é a produção. o artista tem que criar, produzir, o tempo todo. edição também é importante. é preciso desenvolver um critério, um padrão, uma maneira de ver e entender o mundo, a maneira singular que só um artista tem.

Qual foi a exposição que você participou mais importante no seu julgamento?
Acho que foi na SP-Arte de 2006.A galeria Arte 57 resolveu mostrar só meu trabalho (sobre o sertão da Bahia). acho que foi meio revolucionário não só pra mim como pra fotografia aqui... teve uma repercussão incrível. porisso eu respeito muito o dono da galeria, o Renato Magalhães Gouvêa Jr, ele pensa acima do padrão. foi o único a arriscar assim na SP-Arte... e deu super certo... vendemos quase vinte obras na mostra...

Você tem uma rotina de trabalho?
Trabalho o tempo todo. adoro o que eu faço. fotografo, escaneio (sempre com ajuda das minhas ótimas assistentes), trato imagens, edito a série, faço bonecos, mostro pras pessoas, escrevo muito, organizo exposições (este ano vou fazer quatro), escrevo e tento aprovar projetos na lei, penso (fundamental ter tempo pra pensar), medito (adoro meditar), pesquiso, estudo a história da arte e da fotografia, faço sempre algum esporte, bicicleta ou tenis e ainda acho tempo de ficar com minha filha querida de sete anos...


A fotografia no Brasil já está pronta para concorrer no mercado internacional?
Está sim. temos ótimos talentos. se tivérmos um pouco mais de ajuda institucional vamos nos adiantar bem. Mas fica aqui meu protesto: é o cúmulo que ainda não tenhamos um museu da fotografia em São Paulo, que sempre foi um estado que apoiou muito as artes... o governo federal percebeu e agora criou a Secretaria da Economia Criativa. excelente iniciativa. arte não é mais uma questão de cultura só. qualquer grande empresa americana tem acervo de arte. por quê? porque é um ótimo investimento, tanto para a cultura, como investimento econômico... pouca coisa valorizou como a arte... em 1987 o acervo fotográfico do museu Getty de Los Angeles valia 25 milhões de dólares -- hoje vale mais de um bilhão...


Com a fotografia digital e o fotoshop muitos se dizem fotógrafos, qual sua opinião sobre essa proliferação?
Acho ótimo, quanto mais melhor. quanto mais visualmente "alfabetizada" a sociedade estiver melhor pra todos. agora, dizer que só porque tem uma digital e photoshop o cara é fotógrafo é como dizer que quem tem computador e word é escritor...


Que relação existe entre poesia e a fotografia?
Voltaire já dizia:" A pintura é poesia sem palavras". a relação é absoluta.tanto com poesia como com literatura. a sensibilidade aguçada que um poeta como o Manoel de Barros tem é a sensibilidade que um grande fotógrafo tem que ter...

Quais são seus planos para o futuro?
quero fazer mais livros, precisamos ter um museu (ou instituto) da fotografia, gosto muito de dar aulas, de escrever, e principalmente de ver minha filha crescer cercada de amor e atenção.

O que você faz nas horas livres?
hahaha! que horas livres?



Série De Bom Jesus a Milagres

Série São Paulo

Série São Paulo

Série Rio de Janeiro.

Série Homeless

Benares Série Índia (1986) Realizado durante o período vivido na Índia.

Série Old Havana


Série Retratos: Tomie Otake

Série Retratos. Ruth Escobar

Série Retratos Arthur Ashe
Série Retratos Woody Allen.
Série Madness Trabalho realizado em Juqueri, onde viveu por quinze dias.
Série Chelsea Hotel Onde viveu no famoso edifício ao lado de personalidades da música, literatura e cinema.

Série Judeus Ortodóxos Hassidin (1978) Pesquisa de dois anos morando em Brooklin com os judeus hassídicos.




Série Downtown durante o tempo vivido em Venice Beach, Califórnia.


Muito obrigado pela atenção e pela gentileza do convite, espero que vc goste...
abraços,
Claudio
Claudio, nós é que agradecemos. Tivemos a oportunidade conhecer suas múltiplas atividades, sua vida rica, seu pensamento e a sua reconhecida obra. Abraços.

http://pt.wikipedia.org/wiki/claudio_edinger
http://www.claudioedinger.com/

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