sexta-feira, 20 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Claudio Matsumo



Claudio Matsumo


Claudio Matsuno artista paulista trabalhando com uma das marcantes característica da arte contemporânea _ o acúmulo. Uma obra de qualidade. Obrigado Claudio.


Claudio, fale algo sobre vida pessoal.
Nasci em 1971 na cidade de São Paulo, meu pai veio do Japão ainda jovem e minha mãe é de Mogi das Cruzes. Aos 24 anos, graduei-me pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo.Na adolescência estudei violão clássico mas a minha escolha foi as artes visuais.

Como foi sua formação artística? Sempre gostei muito de desenhar mas tive os meus primeiros contatos "físicos" com a arte quando esbarrava nas pinturas que meu pai realizava nas horas livres. Meu pai abandonou a pintura para poder sustentar a família tornando-se um corretor de seguros. Quando chegou o momento de ingressar na Faculdade ele me apoiou muito e isso fez com que eu pudesse terminar meus estudos e assim aprofundar minha formação artística durante o período na universidade.

Que artistas influenciam seu pensamento
Durante a Faculdade sempre peguei muitos livros emprestados da biblioteca e comecei a visitar inúmeras exposições. Como não curtia muito a arte acadêmica, encontrei em artistas como Antoni Tápies, Cy Twombly, Grupo Cobra liderado pelo artista Karel Appel, Iberê Camargo possibilidades mais próximas ao universo que eu vivenciava no momento importante da minha vida. Mas também na adolescência gostava muito de ler livros de filósofos como Sartre, Nietzsche e religiosos como Buda e Mahatma Gandhi. Porém ainda acho que Antoni Tápies foi um dos artistas que mais teve influência na minha vivência artística até os dias de hoje.

Como você descreve sua obra?
Eu sou um péssimo pintor , então tive muitas dificuldades de alinhar meu pensamento referente ao meu trabalho. Durante mais de 15 (quinze) anos fiz vários experimentos. Produzi muitas coisas que acabei jogando fora tentando encontrar um "estilo". Mas nos últimos anos percebi que "estilo" era uma grande bobagem para mim, então através da internet e pesquisas em livros de arte, acabei deparando com artistas da minha geração e até mais novos cujo os trabalhos tinham um diálogo muito forte com os trabalhos que produzia. Um dos exemplos são os artistas Richard Aldrich, Tam Ochiai, Marcelo Solá, Alvaro Oyarzun, Chris Johanson e muitos outros que me motivaram a deixar o "estilo" de lado e assim passei a direcionar minha produção como uma espécie de acumulação, de diários criando uma improvisação e não escondendo mais os erros e as formas toscas que tanto me motivavam a produzir. Talvez descreveria minha obra como o "Lado B" das artes visuais.






A cultura oriental influencia algo na construção dos seus trabalho?


A influência oriental não teve uma relação direta em meus trabalhos, já que todos os artistas que citei anteriormente são de origem ocidentais. Mas percebi que a influência está além da questão plástica e sim na genética. O uso constante da cor preta em meus trabalhos me fez lembrar insconcientemente do "sumi-ê", técnica oriental de pintura. O uso também das ideogramas e palavras são muito fortes, vejo nas palavras um desenho e não uma mensagem de escrita. Talvez neste sentido o oriente e o ocidente estão incorporados de uma maneira muito mesclada no meu interior.
Que exposição sua, você considera a mais importante?
Para mim, toda a exposição é importante, desde o primeiro salão que participei até as mais recentes. Mas posso mencionar a participação no Paço das Artes como a mais relevante já que foi uma dura batalha de quase 08 (oito) anos para poder ter sido selecionado.
Como você descreve o mercado de arte em São Paulo?
O mercado de arte em São Paulo ainda está engatinhando apesar das grandes vendas e inúmeros artistas brasileiros tendo um reconhecimento dentro do mercado de arte. Mas não podemos deixar de perceber que isto pode ser uma névoa passageira e para manter o mercado forte em São Paulo precisamos estabelecer uma constante atuação de profissionais de arte agitando de maneira progressiva e com o pé no chão, senão o sonho pode acabar muito cedo para os artistas principalmente aos jovens que são iludidos pelos preços hiper valorizados que a mídia muitas vezes iludem e também manipulam...

O que é necessário para um jovem artista ser representado por uma galeria?
Ser representado por uma galeria não é sinal de sucesso garantido. A galeria é uma consequência do seu processo de evolução na criação artística, o mais importante é trabalhar, trabalhar, errar, errar e trabalhar em cima desses erros até (aos poucos) o trabalho tomar um corpo consistente e instigante. Assim as galerias vão surgindo conforme seu trabalho houver esta evolução até acontecer as vendas que tanto almejam mas que também não podem se tornar a prioridade na vida de um artista.

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
A música e o cinema tem uma forte influência. Mas nada melhor do que o cotidiano da sua cidade e as pessoas que nela convivem.
É possível viver de arte no Brasil?
Esta é uma pergunta muito pessoal, creio que não só de arte mas um profissional arquiteto pode também não conseguir viver do seu trabalho se não houver um emprego para ele. Na arte também é a mesma coisa, pode sentir um agravamento sim no Brasil, concordo, mas isso também ocorre na Europa, no Japão e nos Estados Unidos. Pode levar um tempo para isso acontecer (de viver de arte) mas é possível se você não desistir.
Você tem uma rotina de trabalho?
Sim. Acordo sempre às 6:00h, tomo o café da manhã e às 8:00h sempre procuro estar no ateliê. Fico até às 12h e depois do almoço resolvo assuntos de fora e retorno somente à noite e fico até umas 22h. Mesmo quando não produzo nada no ateliê, caminho, encaro a parede durante horas e por mais que possa parecer estúpido para alguns isso é essencial para minha criação. Acredito muito na disciplina é essencial para se tornar um artista competente
O que você pensa sobre os Salões de Arte?
Os Salões de Arte são muito válidos para os artistas em início de carreira. Um momento onde podemos experimentar o quanto estamos evoluindo. Digo isso porque acredito que uma exposição não é a finalização de um trabalho e sim de experimento, de perceber os seus próprios erros e corrigir na próxima exposição e assim por diante. Neste aspecto os salões de arte nos ajudam a digerir os tais erros já que não é nada fácil expôr os trabalhos. O salão de arte não pode ser visto como uma saída para poder expôr já que a maioria dos salões não tem uma estrutura adequada com as condições precárias que tem para ser realizado, mas como um complemento à sua carreira e sua produção.
Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte?
Acho as bienais e feiras de arte muito importante sim, porém se não houver competência e sinceridade na diretoria e dos organizadores na realização dos mesmos, isto refletirá aos curadores, artistas e chegará ao público como um evento fraco e monótono , do contrário é um evento de altíssimo nível e muito bem aceito pelo visitante de todas as classes sociais.
Quais são seus planos para o futuro?
Meus planos são de produzir obras de qualidade, trabalhar sempre e desenvolver todos os dias a minha pesquisa nas artes. Também tenho planos curatoriais que venho realizando com artistas brasileiros e internacionais de forma mais independente e abranger cada vez mais a idéia de que a arte possa chegar para maior número de pessoas possíveis do Brasil e do mundo.

O que você faz nas horas vagas?
Creio que artista não tem horas vagas, sou daqueles que vivo e respiro arte a todo momento, não sou um obcecado mas um antenado a tudo que está ao nosso redor para que a partir daí possam surgir possibilidades que mais tarde possa se tornar uma ferramenta importante numa produção. Agora, quando não estou no ateliê, gosto muito de ler, namorar, comer comidas gostosas, escutar música e estar com a família e amigos.


Muito Obrigado Márcio, foi um prazer participar de sua entrevista !

Abçs

Claudio Matsuno








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