terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Claudia Hersz

Há alguns anos, acompanho o permanente desenvolvimento do processo criativo de Claudia Hersz. Na atual exposição Khaza, ela atingiu um patamar digno de reconhecimento, o que já ocorreu por sua inclusão nos Rumos Itaú Cultural. Parabéns Claudia. Sucesso sempre.


Claudia Hersz


Nascida e criada no Rio de Janeiro, sou filha e neta de imigrantes de origem judaica, vindos da Polônia e da Hungria. Meus pais ( ele, na ocasião estudante de engenharia e ela de medicina) se conheceram no Partido Comunista. Minha mãe, que tem 81 anos, foi uma das 2 únicas mulheres formadas em sua turma, e teve uma trajetória da qual muito me orgulho, pois teve uma atuação de vanguarda em Medicina – foi a primeira pessoa a trabalhar com Esterilidade e Fertilidade no Rio de Janeiro e, por ser livre docente, atuou na formação de quase todos que a sucederam neste campo. Meu pai, inicialmente engenheiro, acabou tendo diversas profissões durante a vida ( atualmente é advogado...). Em meados do anos 60, meu pai era professor de fotografia da EBA –UFRJ, e por conta de sua atuação nesta área, onde se tornou grande amigo e o fotógrafo da obra do Ubi Bava, acabei fazendo escolinha de arte desde cedo. Frequentava, aos sábados, o ALAP – Atelier Livre de Artes Plásticas – de Maria de Lourdes Mader Pereira e Vitor Gherard, onde tive o primeiro contato com técnicas e materiais diversos ( gouaches, nanquim, pastéis, linóleo e xilogravura). Ademais, minha mãe em plena batalha para se afirmar como profissional, se recusava a pregar um só botão que fosse. Ou seja, acabei sendo , desde pequenininha, a pessoa que resolvia assuntos relativos a costuras e consertos diversos em casa (...hehehe... Esta condição de “ costureira” foi ainda mais sedimentada quando meu avô paterno, que havia sido alfaiate, me deu uma máquina de costura quando eu tinha 14 anos). Na adolescência me distanciei do fazer artístico, pois estava bem mais interessada em namorar, praticar esportes ( joguei vôlei e fiz salto em altura), fazer uma política estudantil incipiente (fui do Colégio de Aplicação da UFRJ, escola extremamente politizada nos anos 70) e cantar nos festivais da escola.
Meu interesse por arte retornou ao entrar na faculdade de Arquitetura. Tive um professor inesquecível de Desenho de Observação, Anísio Medeiros, e me tornei sua monitora nos 3 anos susequentes. Pela proximidade, frequentei como ouvinte algumas matérias da Belas Artes (a EBA e a Arquitetura são no mesmo prédio do Fundão).
Por razões eminentemente pragmáticas – a necessidade de pagar minhas contas, pois saí da casa dos meus pais durante a faculdade – acabei atuando em Moda quando me formei (construir uma carreira em arquitetura leva anos e a criação e comércio de objetos têm um retorno financeiro imediato). Tive uma pequena fábrica de bijouterias, que fornecia para as principais griffes nacionais e para o Bloomingdale’s. Acho que esta formação eclética, que gerou um conhecimento grande de técnicas e materiais, acabou influenciando minha forma de trabalhar em arte, que é bastante plural, utilizando-se de diversos meios. Comecei a atuar neste campo em 2002, quando entrei para o curso da Anna Bella Geiger e do Fernando Coocchiarale, sucedido por cursos com Nelson Leirner, Rosângela Rennó e Carmela Gross. Comecei, então, a ter um contato mais profundo com o que se chama de Arte Contemporânea, e seu pensamento.
Tive uma certa dificuldade inicial com a visão que o sistema de arte tinha do meu trabalho, exatamente por este comportar pensamentos diversos e se apresentar em formas também diversas. E aqui cabe uma observação que espero que derive em algum tipo de discussão: ainda que este sistema, em seu discurso, procure fomentar a polissemia, ainda é extremamente estruturalista ao quase exigir que a trajetória do artista seja linear - o que a tornaria mais rapidamente compreensível para público, crítica e curadoria. (Esta foi a minha dificuldade, não o fato de ser mulher. O feminino , em meu trabalho, se revela pela alma e modus operandi, não por uma discussão sócio cultural sobre ser mulher. Sou e pronto, nunca percebi nenhuma discriminação ou, se houve, não dei atenção.)
Sou leitora voraz. De romances. Isso influencia barbaramente minha produção: só é possível usufruir de um romance adentrando sua atmosfera sensual e sensorial e respirando junto dos personagens. A identificação é essencial . Isso é o que busco no meu trabalho: não só convencer intelectualmente o espectador de uma idéia, mas envolvê-lo de tal forma na narrativa, que ele se veja ali como parte da obra.
A partir da minha primeira individual, em 2010 – ToYS É NóIS, no Centro Cultural da Justiça Federal , com curadoria de Isabel Portella – passei a ser mais bem recebida por este sistema, ao apresentar uma obra que , ainda que polissêmica, não era uma “salada”. E a atuação artística começou a fluir mais facilmente, em decorrência desta aceitação. Fiz o Abre Alas da Gentil Carioca, fui contratada pelo SESC Rio para fazer performances no Fashion Business ( não é simples essa ação para um público “não especializado”, ainda que o trabalho falasse sobre costuras) e fui convidada por Daniela Labra a participar do Festival Performance Presente e Futuro vol III, no Oi Futuro, onde apresentei um trabalho com Fausto Fawcett sobre a Odisséia (Sim, Penélope. Sim, outras costuras.)
Você me pergunta sobre o significado da seleção para o Rumos Itáu Cultural. O grande significado, para mim, começou antes, quando Marcelo Campos – curador responsável pelo mapeamento no Rio de Janeiro - veio visitar meu atelier e me instou a apresentar um portfolio. Foi a primeira vez que me inscrevi para o Rumos (e seria também minha última oportunidade, pelas regras da instituição), pois foi quando senti que tinha orgulho da obra, desejo e coragem de passar pelo crivo de uma equipe de 13 curadores de alto nível. E para fazer isto, eu tinha que compor um portfolio de apenas 15 imagens que desse conta de uma trajetória, ainda que breve, muito ramificada...
Como “ costurar” os diversos aspectos do meu trabalho? Como apresentar sucintamente uma obra que passa por roupas, objetos, fotografias, árvores no Aterro, , locução em espanhol, demonstrando uma polifonia e não uma esquizofrenia? Essa mirada no espelho, com a auto crítica cruel que me é peculiar, desencadeou uma grande crise existencial... Que se revelou produtiva, me fazendo feliz com o resultado. Tão feliz, que o simples fato de que um conjunto de trabalhos meus fosse visto pela equipe curatorial já me deixava satisfeita. Ser selecionada, então, foi a cerejinha do sundae... Totalmente inesperado! O Rumos Itaú Cultural é um programa importante, que atinge várias regiões do país, e espero que ajude a dar maior visibilidade ao meu trabalho e , consequentemente, ajude a profissionalização deste: já há 2 anos venho ganhando algo , com pro labores na participação de exposições, performances e venda de uma ou outra obra.
No momento, apresento uma exposição - ::KHAZA:: no Espaço Cultural Sergio Porto, com curadoria de Bernardo Mosqueira - em que diversos dados autobiográficos originaram uma narrativa em esses dados quase desaparecem e ali está um pedaço da humanidade falando da tal Humanidade... A boa receptividade e o entusiasmo que tenho percebido me têm encantado.
Ainda não sou representada por nenhuma galeria, assunto que estou analisando com muita calma, pois estas tendem a ser relações algo hierarquizadas com novos artistas e o que espero é , além da relação notoriamente comercial, o suporte, parceria e respeito mútuo que façam o trabalho florescer.

beijo grande

Claudia Hersz



Exposição Casa


Exposição Casa


Exposição Casa


Texto do curador Bernardo Mosqueira para a exposição Khaza de Claudia Hersz.






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