sábado, 21 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Claudia Bakker


O TEMPO COMO ALGO ORGÂNICO
"O trabalho que Claudia Bakker desenvolve é tocado por essa atração incessante, delicada e forte, pela meditação sobre o orgânico.
Nas fontes e nas maçãs, o líquido e o sólido são especialmente emblemáticos.Nesta falada atração sobre o tempo desde as Potências do Orgânico,Claudia consegue descobrir um achado: o próprio tempo como algo orgânico. Para documentar isto nada melhor que o exercício e o auxílio da fotografia.O registro de um trabalho vira um outro trabalho para receber novas leituras." 

Adolfo Montejo Navas, Rio de Janeiro, 1998 [Galeria Museu da República/Fototextos].

Claudia Bakker
Claudia Bakker artista visual. Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Utiliza instalações, fotografias, desenhos, intervenções e filmes. Fez inumeras exposições no Brasil e no exterior. Foi selecionada para o projeto Macunaíma, FUNARTE. Claudia é casada com o curador e crítico Marcio Doctors e tem duas filhas. A rica entrevista está em consonância com sua madura e reconhecida obra. Grande contribuição Claudia. Muito obrigado.

Fale algo sobre sua vida pessoal.
Sou carioca, casada, tenho duas filhas.

Como foi sua formação artística?
Minha formação mais importante foi o convívio com a amiga e artista Lygia Pape e a participação em grupos como o Visorama, essas pessoas me estimularam, e além disso possuem linguagens que me interessam. A paixão pelo mar faz parte da minha formação artística. O contato com a natureza foi uma espécie de iniciação espiritual que me levou a me interessar por arte. Também frequentei o Parque Lage e tenho um mestrado em Comunicação e Tecnologia da Imagem pela ECO/UFRJ.

Que artistas influenciaram seu pensamento?
Lygia Pape e Hélio Oiticica, e atualmente tenho estado muito interessada no trabalho da Lygia Clark. Além deles Robert Smithson e Eva Hesse.

Como você descreve sua obra?
Ela está num lugar entre o corpo e o espaço, numa relação orgânica entre a sensação e o pensamento. Construo uma linguagem feita de sistemas que se dividem em séries.

De que maneira o Mestrado influenciou em seu trabalho?
Me ajudou a aprofundar questões que estavam latentes no meu trabalho naquele momento. Pude me dedicar a pensar sobre a relação entre a arte e a natureza. Eu acreditava que a arte seria uma forma de salvaguarda da natureza, e que as instalações na natureza fariam essa salvaguarda, mas hoje não acredito mais nisso. Acho que a natureza deve se preocupar mais com ela mesma.

Você tem uma rotina de trabalho?
Tenho, trabalho todo dia, mesmo que os horários sejam variáveis.

O que você pensa sobre os salões de arte? Tem alguma sugestão para aperfeiçoá-los?
Para ser sincera eu não gosto de salões de arte. Acho que as residências hoje representam um espaço mais importante para os artistas contemporâneos.

Além dos estudos sobre artes quais são as outras fontes de influência no seu trabalho?
Filosofia e literatura são importantes, além do cinema e da moda.

A mulher já ocupa o mesmo espaço do que o homem no mercado de arte?
Acredito que sim.

É possível viver de Arte no Brasil?
Falta ainda muita estrutura, mas acredito que sim.

Existe comprador para vídeo?
Existe, apesar de achar que as pessoas no Brasil, os colecionadores, ainda tem uma certa resistência.

Quais são seus planos para o futuro?
Continuar trabalhando.

De que maneira você aproveita as horas livres?
Fico com a minha família e com meus amigos, caminho muito na natureza,viajo, vou a praia, ao cinema, etc...

O Jardim do Éden e o Sangue Górgora Museu Açude. Fototexto 1994/2010. Foto Claudia Bakker.

Quanto Tempo Dura (1988) Instalação. Fotografia Claudia Bakker.

Primavera Noturna Intervenção Museu Eva Klabin Fototexto 2007/2010. Foto Claudia Bakker e Vicente de Mello.
De João Cabral de Melo Neto a João Cabral de Melo Neto em a Lição de Pintura (2010) Foto Claudia Bakker

Via Lactea (1966) Museu do Açude. 3000 litros de tinta branca. Fotografia Claudia Bakker e Wilton Montenegro.

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Desenho Orgânico (2010) Foto Daniela Dacorso.


"O artista americano Robert Smithson(1938-1973)disse certa vez que via suas intervenções na natureza (land works) como um esforço para devolver a “Montanha Sainte-Victoire”a Cézanne. Guardada as devidas proporções, diria que Claudia Bakker vem, já há algum tempo, tentando o mesmo em relação as maçãs.Depois de Cézanne, as maçãs nunca mais foram as mesmas. As centenas de maçãs pintadas pelo grande mestre francês criaram e revelaram oque parecia impossível:a maçã numa migração da natureza para a pintura. Basta olhar para crer. A exposição de Claudia Bakker na Galeria do Museu da república,intitulada “Foto-textos”, dá continuidade a trabalhos anteriores realizados no Museu do Açude e na Funarte. A questão é sempre a mesma as maçãs e o tempo. Seja através das fotos e do texto(utilizados na exposição), ou do vídeo e da instalação(em outras ocasiões),oque está em jogo são os modos de permanência que as coisas (a maçã e a arte) têm,expostos a consumação do tempo. A maçã,como metáfora da arte e da vida,só existe pela morte. O paradoxo é este:sem morte não a vida. Suas fotos misturam os tempos, ou melhor, elas querem ser tempo:da escrita,da arte, da fruta e do feminino. Todos os tempos num só,que parece retornar sempre novo. A maçã como natureza e como cultura. Se na recente exposição da Funarte-em que um grande mapa do Brasil estava desenhado no chão com maçãs,que apodreceram-interessou-lhe o tempo das coisas nelas mesmas, nestas fotos ela privilegia as múltiplas apropriações criadas pelas representações culturais. Seria interessante se as duas exposições estivessem mais perto,criando um campo de oposição e complementaridade. Por outro lado,a sensação de vazio desta exposição contribui para as referências simbólicas se revelarem para o espectador. As “Fototextos” de Claudia Bakker,são, antes de tudo silenciosas, não obstante as múltiplas indicações de significado. A arte contemporânea, enquanto processo e crise, trabalha nesse território abismal e milimétrico entre o silêncio e o sentido, revelando, que no fundo, tudo é tempo e linguagem."
Luiz Camillo Osório / 1998

© claudia bakker

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