terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Chico Cunha


Chico Cunha

Chico Cunha é arquiteto ativo, pintor reconhecido e professor respeitado da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Fez parte da Geração 80 e suas obras estão importantes museus e coleções. É representado pela Galeria Anna Maria Niemeyer. Obrigado Chico.

Chico, conte um pouco de sua história pessoal.
Minha irmã sempre trabalhou em galeria de arte e, como ela é bem mais velha que eu, sempre convivi com isso desde cedo. Com treze anos, fui ter aulas com o Abelardo Zaluar e frequentei por uns anos o atelier dele lá na Urca.

Como foi sua formação artística?
Entrei no Parque Lage em 1980, quando cursava o terceiro ano de arquitetura. Naquele momento, estava muito decepcionado com a universidade e o universo de trabalho que ela apontava para o meu futuro. Na EAV, existia um curso chamado “oficina permanente”, uma idéia muito boa que consistia em aulas durante toda semana com seis professores diferentes, cada um para uma matéria. Após três meses no parque, tranquei a matrícula na faculdade e passei aquele ano inteiro chegando lá às dez da manhã e saindo quando fechava. Depois, fui ter aula com o John Nicholson, fiquei com ele por um bom tempo e eu e a Cristina Canale tínhamos trabalhos específicos, bem voltados para uma procura de linguagem. Fiz um tempo de xilogravura, quando realizei minha primeira individual em uma das galerias da Funarte. Em 83, abri, junto com a Beatriz Milhazes, um ateliê no Horto. Com o tempo, passei a dar aulas, fiz algumas bolsas no exterior e o curso de especialização em História da Arte e Arquitetura no Brasil, lá na PUC.

Que artista influenciam seu pensamento?
Muitos, Guignard foi especial. Tenho alguns prediletos como Iberê, Rothko, Cy Twombly, Warhol, Hopper. Atualmente, Marlene Dumas, Peter Doig, Paula Rêgo e Michael Borremans.

Como você descreve sua obra?
Minha preocupação sempre foi com as possibilidades da figura e eventual narrativa na pintura contemporânea. É uma área bastante complicada. Enquanto a maioria dos pintores da minha geração foi abandonando a figura, fiz o caminho contrário.

O que é ser um pintor no século XXI?
Quem escolhe a pintura como mídia vai lidar com uma história imensa. O que acho sedutor nela é o fato de que a superfície é muito honesta, não dá para disfarçar, ou seja, suas opções de construção da imagem vão salvar ou destruir seu pensamento.

Uma grande parte dos alunos das Faculdades de Arte é aluno da EAV do Parque Lage, o que você poderia comentar sobre isso?
Na EAV, o que me agrada e sempre defendo é que é um lugar onde se pode ter a prática da arte, onde existe a convivência de vários tipos de pessoas e tribos, o que gera troca de pensamentos. Gosto muito de ter na minha aula um aluno de 20 anos convivendo com um de 60, com mundos e experiências totalmente diversas, acho enriquecedor. Sempre afirmo nas aulas que arte é um resultado de experiências e pensamentos dos mais diversos. Acho que muitas vezes o fazer faz falta nas universidades, vejo isso por alunos vindos da academia.

O que é necessário para um jovem artista ser representado por uma galeria?
Trabalho.

Que conselho você daria a um artista iniciante para ter sucesso na carreira?
Disciplina e procurar o prazer no trabalho e não no resultado dele.

O que você pensa das Bienais e das Feiras de Arte?
Acabei de chegar de uma viagem em que visitei a Bienal de Veneza. Achei fraca, mas, ao mesmo tempo, vi um dos melhores trabalhos da minha vida, que se chama The Clock, um vídeo do Christian
Marclay. Vale a pena procurar na internet. Talvez o formato das Bienais é que tenha que ser repensado. Quanto às feiras de arte, acho que elas são muito importantes, porque um mercado forte gera efervescência artística. Não dá pra esquecer o dinheiro... KKK.

A arte brasileira já está em condições de concorrer no mercado internacional?
Claro, já concorre. Temos alguns artistas realmente internacionais. Atualmente, o maior problema do Brasil é a ignorância do governo e de parte do mercado em relação à arte. Os impostos e entraves burocráticos geram dificuldades enormes para o desenvolvimento de um ambiente propício à arte. Museus sem verba, escolas idem, mercado inconsistente, falta de materiais etc. Uma pena.

Curador é fundamental?
Pessoas que pensem arte, que acompanhem determinadas produções e contextualizem são importantíssimas, sem elas a arte não anda.


Além de artista você é arquiteto, como as duas atividades se completam?
Muitas vezes, minha pintura fala de arquitetura, já fiz algumas instalações e cenários. Trabalho com arquitetura desde que me formei, tenho muitos projetos realizados. Acho que todo meu lado pragmático vai pra ela, deve funcionar bem, já que os clientes sempre ficam satisfeitos, KKK. Na arte, só penso na minha vontade, bem mais complicado...


Quais são seus planos para o futuro?
Futuro é uma palavra bem abstrata. Fazer uma exposição ano que vem e começar um novo curso no Parque (com o Daniel Lannes) só sobre pintura figurativa, analisando conjuntos de artistas contemporâneos e seus pares na história, já estão certos, o resto vai acontecer conforme o andar da vida...

O que você faz nas horas livres?
Me relacionando com coisas que me dão prazer e alegria.





Sem título (1901) 1,90x1,20 cm. Coleção do artista


Sem título (1993) 1,80x1,20 cm. Coleção particular


Sem título (1995) 1,20x1,70 cm. Coleção Gilberto Chateaubriand


Sem título (1993) 1,80x1,30 cm. Museu de Arte de Brasília


Sem título (2006) 180x170 cm.


Sem título (2001) 120x84 cm. Coleção João Sattamini.


Sem título (2003) 80x50 cm.Coleção particular.


Sem título (2005) 120x100 cm.


Sem título (1991) 180x130 cm. Coleção Marcantonio Vilaça.


Sem título (1998) 60x70 cm. Coleção Nelson Eizarick









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