terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Celio Braga.



Célio Braga


Célio Braga artista multimídia e performático, radicado em Amsterdam com atelier em São Paulo conta sua história e a rica experiência vivida no exterior. Obrigado Célio pela participação e parabéns pela excelente obra.


Célio, fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci em Guimarânia no interior de Minas Gerais. Minha origem familiar é simples, meus avos por parte materna e paterna eram fazendeiros, o meu pai era comerciante e a minha mãe dona de casa, costureira e bordadeira.
Tive uma infância comun e feliz mas desde cedo sentia um desejo muito grande de sair da minha cidade natal, um desejo de viver em grandes cidades e conhecer novos lugares. Aos 12 anos,incentivado por uma pintora local (Anita Guimarães) começei a pintar e esta atividade se tornou para mim a minha grande fonte de prazer e alegria.
Aos 15 anos, fui morar com uma tia em Uberlândia onde iniciei e conclui os meus estudos de segundo grau. Quando eu completei 18 anos, cansado de Minas Gerais, de Uberlândia, do controle familiar, me rebelei e fui sozinho morar em Goiânia. Os meus primeiros mêses em Goiânia foram difíceis, pobres e solitários mas após alguns mêses eu já estava trabalhando (no Banco Itaú) e dividindo um apartamento com amigos. Pela primeira vez em minha vida me senti livre e dono do meu destino. Gostava do meu trabalho no Banco e continuava pintando nas horas vagas, feriados e domingos. Nesta mesma época começei a expor e vender os meus trabalhos. Me sentia completamente em casa em Goiânia. Fiz grandes amigos. Me apaixonei. Conheci Cora Coralina. Miguel Jorge. Bernardo Elis. Célia Camâra. Siron Franco. Adorava ler poésia. Ir ao teatro. Em 1984 passei no vestibular onde iniciei os cursos de Administração de Empresas, Serviço Social e Psicologia e logo logo desisti de todos eles. Não era para mim.
Depois de quase 3 anos trabalhando no Banco Itaú começei a me sentir sufocado e cansado em Goiânia. Solicitei uma transferência junto ao Banco e fui morar no Rio de Janeiro. Morei no Rio por 7 mêses. Trabalhava a noite no 'Centro de Compensação do Banco', chegava em casa as 7 horas da manhã e não conseguia dormi mais que 4 horas por dia. Era horrivél! Não fiz amigos no Rio. Me sentia sempre cansado e sem energia para viver, pintar ou aproveitar a cidade. Pedi demissão do Banco. Voltei a Goiânia e passei a pintar em tempo integral e para a minha surpressa começei a vender o meu trabalho com muita facilidade em Goiânia e Brasilia.
Em 1987 decidi sair do Brasil e me jogar no mundo e no incerto. Conheci um americano e em janeiro de 1988 fui morar em Boston ontem fiquei até o final de 1990.
O impacto que estes anos tiveram na minha formação como artista foram fantásticos. Adorava passar dias inteiros visitando galerias e museus em Boston e Nova Iorque (onde eu ia com frequência). Tudo era fantásstico, novo e vibrante e eu estava aprendendo e conhecendo coisas que eu nem imaginava que existiam. Em 1989, eu me inscrevi no prograna de 'Continuing Education' do 'Boston Museum School of Fine Arts' onde eu tive aulas de desenho, história da arte, filosofia e gravura em pedra e metal. Nesta época, eu conheci o meu professor querido (John Brenan) que me acolheu e me ensinou e me introduziu ao um mundo de artistas, livros, ideias até então desconhecidas para mim.
Depois de mais de 3 anos morando nos Estados Unidos, achei que era hora de voltar para o cerrado. Retornei a Goiânia muito feliz, seguro e orgulhoso de mim mesmo. Participei de um projeto (90 Horas de Pintura Contemporânea) organizado pela Organização Jaime Camâra onde eu fui premiado com um Prémio de viagem a Europa e assim, inesperadamente, eu parti para uma nova jornada. Cheguei em Madrid no início de 1991, viajei de trem pela Espanha, Italia, Suiça, Austria, passei um mês em Paris, fui para Berlim e na volta parei em Amsterdam. Conheci o meu companheiro (Dennis Leeuw) e acabei ficando em Amsterdam por 18 anos... e assim continua sendo a vida; sempre cheia de surpressas.




Você teve formação artistica no exterior, poderia contar a experiência?Os meus estudos em Boston foram de grande importância para mim e abriram os meus horizontes para novas possibilidades. Nesta época eu começei aos pouco a me distanciar da pintura. Começei a me interessar muito por papel, collagem, objetos e escultura. Começei a trabalhar com matériais diversos num desejo de colocar as coisas do meu entorno dentro do meu trabalho, de acumular e adicionar informações e técnicas diversas.
Em Amsterdam, fui aceito como estudante na Gerrit Rietveld Academie onde me formei em 2000 e
o meu trabalho mudou completamente. Desisti da pintura por completo e começei a construir trabalhos como se fossem corpos, verso, frente, lados, com texturas, dentro e fora, num desejo de penetrar e entrar dentro do suporte e dos materiais usados.
Na Rietveld eu aprendi a pensar o meu trabalho, a estar atento e a me perguntar sempre o porquê daquele trabalho, daquela forma, daquela cor e daqueles matériais.
Na Rietveld Academie cada estudante faz o seu próprio programa de estudo e os professores te ajudam na realização do mesmo, com um programa intenso de palestras, bate-papos, visitas a museus e a ateliers de artistas, viagens, conversas com curadores... etc... e o ensino é muito voltado para o fazer, para descoberta individual e para o desenvolvimento de um estilo proprio.
Outro fator de grande importância é o contato que você tem com estudantes de diferentes partes do mundo. No meu grupo eu tive colegas da Holanda, Bélgica, Alemanha, Coréia do Sul, Finlandia, Dinamarca, Portugal, França e Inglaterra e esse contato é fantástico pois cada estudante traz para dentro do grupo o seu mundo, sua lingua, suas tradições e suas formas diferente de ver o mundo.

Que artistas influenciaram seu pensamento?Ainda no Brasil a minha grande referência foi Gustav Kimt. Em Nova Iorque, no MoMA, eu tive o prazer de ver pela primeira vez uma exposição do Paul Klee que até hoje é uma grande fonte de inpiração e exemplo para mim. Adoro Klee, o formato pequeno, o cromatismo maravilhoso, o uso de materiais e técnicas diversas, o formalismo e a intuição afiada na construção de um universo único, intimista, ludico, misterioso e perfeito.
Adoro a abstração e o minalismo concentrado da Agnes Martin e ainda nesta mesma época me apaixonei definitivamente pelo trabalho de Felix Gonzales Torres e até hoje quando eu vejo uma instalação do Felix; os campos coloridos com balinhas, os posters (como quadrados minimalistas), as luzes dependuras, as cortinas azuis... sinto o meu coração bater mais forte e um desejo estranho de sorrir e chorar. Acho incrível como ele conseguiu unir formalismo e emoção em seus trabalhos e de construir este formalismo amoroso e sempre repleto de generosidade.
Sempre me interessei muito pelo trabalho do Leonilson e a sua obra continua sendo para mim uma das referências mais constantes e importantes. Atualmente tenho me interessado muito pelo trabalho do Helio Oiticica e pelo poder da cor como fio condutor em sua obra.


Além do estudo de arte o quê o ajuda na elaboração dos seus trabalhos?
Tenho uma grande fascinação por cinema e a obra de alguns cineastas foram e continuam sendo essenciais como fontes de inspiração e reflexão. Rainer Fassbinder, Pier Paolo Passolini, Gus van Sant, Paul Schrader, Francois Ozon, Pedro Almodovar, Greg Araki, Derek Jarman, Todd Haynes, Claire Dennis... e para não esquecer o único filme dirigido e escrito por Jean Genet 'Un Chant D'amour'.

Como você descreve seu trabalho como artista?
O meu trabalho é uma expressão daquilo que eu sou, dessa mistura de afetos, curiosidade, tentativas, fracassos e desejos. Me interesso muito pelo corpo, pela fragilidade e vulnerabilidade do mesmo e pela passagem do tempo... e todos os meus trabalhos, de forma direta ou indireta remetem a estes temas.

Você trabalha na Holanda e no Brasil que diferenças você poderia apontar entre os dois mercados? O mercado na Holanda é extretamente institucionalizado. Os museus, as galerias, as instituições culturais, as escolas de arte e os artistas são em grande parte subsidiados pelo governo e esse incentivo gera uma produção extremamente interessante e experimental mas tambem gera um certo comodismo. Tudo é muito organizado e quando você (como artista) é assimilado e aceito por este sistema você passar a receber uma série de subsidios que financiam a produção e garantem a sua subsistência digna do artista. Para mim morar, estudar e trabalhar na Holanda foi maravilhoso. Aqui eu tive a oportunidade, o tempo e a tranquilidade de fazer e desenvolver o meu trabalho sem a pressão e a preocupação em vender o trabalho e isto me deu uma grande liberdade de criação e experimentação.
Neste momento, e, com esse meu retorno para o Brasil eu sinto um desejo de criar um mercado comercial para o meu trabalho e acredito que isso será mais possível no Brasil do que na Holanda.
No Brasil, eu vejo que tanto as instituições como as escolas de arte, as galerias e os artistas estão mais voltados e orientados para o mercado comercial.



É possível viver de arte no Brasil?

Eu acredito ser possivel viver de arte no Brasil, mas isto é sempre muito pessoal e vai depender de uma série de fatores que envolvem tanto relações de poder, como localização, talento, perseverança e sorte.


O Brasil já tem condições de concorrer no mercado internacional de arte?
A produção de arte brasileira é muito interessante, forte e vibrante e dialoga de igual para igual com a produção internacional.
Artistas como Tarsila do Amaral, Sergio Camargo, Mira Schendel, Ligia Clark, Helio Oiticica ( para citar alguns...) tiveram este papel determinante de colocar o Brasil no cenário international e esses mesmos artistas são hoje referências importantes e centrais tanto no Brasil como em várias outras partes do mundo. Atualmente temos artistas (como; Cildo Meirelles, Tunga, Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Marepe, Ernesto Neto, Iran do Espirito Santo, Antonio Dias, etc...) que são representados por importantes galerias e estes mesmos circulam com frequências nas grandes mostras internationais e nas mais representativas feiras de arte.
O Brasil em termos de qualidade é parte significativa do mercardo international e com a chegada das feiras de São Paulo (SP ARTE) e do Rio de Janeiro (ArtRio) este mercado ficará cada vez mais visível e forte.

Quais são seus planos para o futuro?
Trabalhar muito para melhorar, destilar e afiar a minha produção.


O que faz nas horas vagas?
Gosto muito de ler, ver filme, visitar galerias e museus e fazer longas caminhadas em grandes cidades (para me perder e assim descobrir o novo, o diferente, o perigoso e o inusitado...)








Sem título ( Serie Abstractiondo Die for) (2010) Lápis e lápis de cor sobre papel. 30x105 cm




Sem título



Sem título (2009)




Sem título (Black)




Sem título (2009)



Performance Foto 1.




Performance Foto 2




Full Blown Instalação detalhe 400x400 cm.




Rublos (2001-2002) 14 objetos, dimensões variáveis. Collection Stedelijk Museum, Amsterdam.




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