terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Carla Evanovitch



Carla Evanovitch

Carla vive e trabalha em Belém do Pará. Foi selecionada para o Rumos Itaú Cultural. Numa lúcida entrevista mostra como é trabalhar em local distantes dos grandes centros do país. Parabéns Carla e obtigado pela participação.

Fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci em 1980, moro em Belém. Sou bisneta de Russo, filha de um funcionário público e uma cuidadora de idoso. Tenho dois irmãos, um futuro advogado e uma gerente de loja. Eu sou a única artista da família e tenho quase certeza de que além dos meus pais e irmãos, nenhum outro membro da família Evanovitch sabe a profissão que exerço. Há 31 anos sou uma imigrante dentro do meu próprio bairro e eu adoraria permanecer ali, se não fosse a crescente violência que contamina todas as cidades brasileiras. Gosto do que é periférico enquanto artista, as bordas têm uma riqueza inquietante e isso me interessa demais. Quando criança eu desenhava nos livros da escola e era extremamente tímida, mas aos poucos fui aprendendo a lidar com isso sem ficar bloqueada. Não tenho filhos, mas tenho uma cadela com nome de personagem de novela mexicana com a qual mantenho um diálogo diário, para mantê-la intelectualmente ativa.


Como foi sua formação artística?
Estudei desenho e pintura durante quatro anos em cursos livres com Valério Silveira, um excelente professor que se tornou um grande amigo. Desde então, comecei a participar de exposições coletivas em Belém. Na época eu trabalhava completamente fora da área e ainda não sabia o que queria para os anos seguintes, foi nesse momento que decidi ingressar no Curso de Artes da Universidade Federal do Pará, onde me formei em 2008. Fui aluna do Alexandre Sequeira, Orlando Maneschy, Val Sampaio, Ronaldo Moraes Rêgo e muitos outros professores/artistas que foram facilitadores na minha formação artística, que considero em permanente construção.


Que artistas influenciam seu pensamento?
Eu tomei consciência da relação que iria estabelecer com a arte logo na primeira vez que vi uma obra de Vincent Van Gogh (ainda em livros de arte). Tudo veio a partir dele, naquele momento eu enxerguei a mim mesma e entendi meu estranhamento em relação ao mundo. Definitivamente, eu tenho uma personalidade expressionista. Talvez por isso, eu acredite na arte como um grito, e, sobretudo, acredito na salvação através dela, porque sou a prova viva disso. E respondendo a tua pergunta de maneira mais objetiva, eu penso que tudo que me impressiona ao ponto de olhar mais de uma vez me influencia, mesmo que a nível inconsciente e os nomes são muitos, tantos que não posso lembrar-me de todos, mas para citar alguns de diferentes linguagens: Van Gogh, Augusto dos Anjos, Chagal, Kint, Bispo do Rosário, Stuat Hall, Cindy Sherman, Milton Santos, Regina Melin, Marina Abramovic, Hélio Oiticica. Mais recentemente, Dora Garcia, Kriztof Wodzizko, David Wojnarowicz, Orlan, além de revistas, jornais sangrentos, televisão, internet, pessoas.

Como você descreve sua obra?
Difícil dizer, estou mergulhada demais nela para falar com total clareza, o olhar distante visualiza e define melhor meu trabalho, sem minhas próprias contaminações. Eu lido com aspectos do meu cotidiano, os ônibus da cidade, as pessoas que se impõe ao meu olhar, a tensão que a cidade revela no final de cada dia. Sinto-me “entre”, não estou nesse lugar, mas a caminho de alguma coisa que ainda não sei..
Meu trabalho tem um arcabouço emocional muito intenso no processo de elaboração e venho tentando equilibrar minhas emoções para minimizar ou danos. Fora isso, sou uma transeunte, gosto de ser urbana, incomodada e invisível. Isso tudo se configura em conceito no meu trabalho, mas só mesmo o tempo e os outros poderão definir minha produção.

Você se formou, vive e trabalha em Belém, isso dificulta sua inserção no mercado nacional?
Estou produzindo com alguma continuidade há quatro anos e por enquanto não tenho muita preocupação com essa inserção no mercado nacional. Acho que tudo tem seu tempo e somente agora começo a pensar nessa possibilidade de ter ou não meu trabalho inserido num contexto nacional. Eu gosto de estar sóbria em relação ao que produzo, tenho consciência de que cometo muitos equívocos e não tenho medo disso.
Mas a liberdade que tenho em não ter relações paternalistas me possibilita uma autonomia sob o meu trabalho que me permite experimentar muito mais. Acho que essas distâncias tendem a se diluir, à medida que o Brasil compreender que a região
Norte e Nordeste também geram receita e passarem a apostar mais nesses locais com incentivos culturais. Ainda estamos colhendo migalhas do que é feito na região Sudeste e temos que nos dar por satisfeitos. Isso reflete na maneira como temos nosso trabalho recebido em outras regiões. Mas eu não vejo isso como uma condição limitadora ou como uma postura preconceituosa, as barreiras estão sempre ai e para todos. Vejo isso, como uma conseqüência desse contexto criado dentro de uma esfera econômica, é natural você depositar suas fichas em um artista que está ao alcance de seus olhos, que sem muito esforço é possível acompanhar sua trajetória, visitar seu atelier ou simplesmente tomar conhecimento da existência dele, ao invés de um artista que está no interior do Estado do Pará, por exemplo, e apesar de ter um trabalho coerente, precisa antes de tudo eliminar essas fronteiras que tiram a visibilidade de seu trabalho. É um desafio para os Curadores chegarem até esses artistas e para os artistas se fazerem mais presentes, apesar das distancias.

Que exposição sua, você considera a mais importante?
Não sei se a palavra mais adequada seria “importante”, mas certamente a exposição resultante da minha Bolsa de Pesquisa do Instituto de Artes do Pará, em 2009, foi a que me trouxe um grande aprendizado em diversos aspectos, inclusive no âmbito pessoal. O projeto chama-se “Performações Urbanas”, o mesmo que recentemente foi escolhido pela seleção Rumos Itaú Cultural e é resultado de uma pesquisa de quase um ano, envolvendo personagens urbanos e suas relações ficcionais com passageiro de ônibus. Eu quase enlouqueci enquanto fazia esse trabalho porque me envolvia demais com as pessoas, eu não sei tocar nada com a ponta dos dedos, mergulho de cabeça e às vezes me afogo. Sobretudo, porque é um trabalho marcante que me levou a vivenciar alguns personagens urbanos para além da epiderme e esse é o tipo de trabalho que parece não esgotar-se nunca. Sempre digo em relação a ele que tudo está em processo e os desdobramentos ainda estão por vir e de fato estão.

Como você descreve o mercado de arte no Brasil?
Sou a pessoa menos indicada para te dar essa resposta por uma razão simples. Em Belém, não existe mercado de arte da maneira como é constituído nos grandes centros urbanos. Eu desconheço essas relações mercadológicas que giram entorno da arte contemporânea, sobretudo porque produzo até o presente momento obras não-vendáveis. E que fique claro, não vejo mérito nenhum nisso, o artista deveria poder trabalhar com alguma liberdade financeira, produzir e vender. Aqui em Belém, existe uma tendência a visualizar o artista que vende suas obras como um “corrompido” e isso me parece uma leitura muito romântica e superficial de quem está tentando inserir uma discussão sobre critica de arte, outra lacuna no contexto artístico de Belém. Nacionalmente, ainda acho que a arte é um ofício pouco reconhecido, embora eu conheça alguns artistas do Sudeste que vivem com certa dificuldade como a maioria dos trabalhadores Brasileiros, mas que ainda assim conseguem viver de sua arte, dedicando-se diariamente a ela. No meu caso, produzo aquilo que me parece mais coerente com a maneira com que percebo o mundo e isso normalmente não se configura em matéria de fácil absorção. Por outro lado, minhas exposições individuais vieram de Bolsa de Pesquisa, Editais de arte e premiações em salões de arte, que de certa forma movimentam esse mercado de arte minimamente existente no Norte do Brasil. Se temos essa restrição financeira, temos como contraponto, uma maior liberdade na produção, porque produzimos consciente do mercado que nos cerca e aceitamos o risco.

O que é necessário para um jovem artista ser representado por uma galeria?
Eu poderia te dizer: “ter um bom trabalho”, mas seria te dar uma resposta pouco argumentativa. Eu sinceramente não sei, ainda vivo muito longe dessa realidade.

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
Tudo que fiz até hoje, sempre nasceu da minha observação da cidade e do comportamento humano. Meu grande esforço está em manter meu olhar de estréia para jamais me acostumar com a brutalidade do mundo. O incomodo com a violência gratuita e a tensão latente me motiva a produzir, às vezes de forma muito sutil, mas sempre é uma reação a esse soco diário. Também acredito que não há artista que não faça de sua arte uma expressão auto referente e minhas derrotas também tem se tornado armas de reação e criação. No mais, me interesso muito por arquitetura e psicologia, cheguei a fazer meu TCC sobre Arte e Loucura para suprir esse meu interesse pelos “estados alterados”, acho que inconscientemente o que eu queria mesmo era me conhecer melhor. Tenho uma amiga psicóloga que diz que o artista é um “louco com credencial” e talvez sejamos, mas não seria melhor sermos apenas loucos?

É possível viver de arte no Brasil?
Talvez sim, como disse anteriormente conheço artistas que conseguem isso. Na região norte, eu conheço apenas um artista que vive exclusivamente de sua produção em arte. De modo geral, é necessário ir além de seu processo particular de criação. Dar aulas em instituições públicas ou privadas, fazer concurso para professor e às vezes trabalhar em uma área completamente diferente. Eu sou concursada de uma fundação cultural de Belém e aguardo ser nomeada no próximo ano, tenho em mente o desejo de fazer um mestrado, mas as incertezas financeiras ainda determinam minhas escolhas.

Você tem uma rotina de trabalho?
O artista é seu próprio algoz. No meu caso, minha falta de disciplina com horários e etapas de trabalho me sabota freqüentemente. Minhas leituras são truncadas, porque sou dispersa e o mínimo ruído tira minha atenção. Na época da universidade, eu evitava sentar próximo à janela porque os passarinhos me tiravam a atenção e sempre foi uma loucura conviver com esse meu “ingrediente especial”. Eu leio no meu tempo e trabalho num ritmo extremamente lento, levo meses escrevendo sobre coisas que não sei se vai resultar em algo. Somente agora entendo que esse é meu processo de trabalho e não posso modificar isso, porque só funciono dessa maneira. De modo geral, meu atelier é móvel e quando preciso realmente organizar as coisas na minha cabeça, saio de casa para andar de ônibus, fico rodando a cidade e observando o comportamento urbano. A paisagem que se forma em Belém no fim de tarde é um alento para minha confusão mental. Além do mais, meu trabalho está na rua, pois eu me alimento da vida dos outros para dar forma ao meu trabalho e há sempre muito que se ver para além de nossa cerca elétrica.

O que você pensa sobre os Salões de Arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Os salões de arte são muitas vezes a única porta de entrada para os jovens artistas, embora não seja o único canal de inserção, no inicio sempre parece o melhor caminho e ainda é uma maneira que o artista encontra para conseguir alguma visibilidade. Existe muito conservadorismo nos salões de arte, especialmente nos concebidos para artista em inicio de carreira, essas limitações modificam a apresentação do trabalho e o artista passa a arriscar menos, acho isso preocupante para quem está começando.

O que significa ser escolhida para participar do Rumos Itaú Cultural?
Eu não sei o que essa escolha por parte do Rumos Itaú Cultural vai ocasionar no meu trabalho e na minha vida. Quase ninguém conhecia meu trabalho fora da região norte e às vezes acho que fui o azarão dessa seleção, eu mesma não acreditei quando fui comunicada pela equipe do Rumos porque não esperava estar entre os 45 artistas. Minha produção é muito recente e só começou a ganhar consistência a partir de 2007. Ainda assim, é uma porta se abre e eu estou pronta para entrar nela.

Quais são seus planos para o futuro?
Esse ano eu exclui da minha vida a idéia de planos a longo prazo, porque eles nunca funcionam comigo. Mas tenho objetivos para no máximo seis meses. Agora por exemplo, decidi sair da minha cidade e morar dois meses em outra capital, experimentando a rotina de uma nova cidade, com outros problemas e novas relações sociais que tirem da minha zona de conforto. Sobretudo, para experimentar a viabilidade de dois novos trabalhos que ainda estão no plano das idéias. No mais, gostaria de viver até os 102 anos “pra ver como será que deve ser envelhecer” (citando uma canção do Arnaldo Antunes).

O que você faz nas horas vagas?
Eu adoro escrever, mas não tenho nenhuma pretensão com isso. Escrevo no que estiver ao meu alcance, computador, celular, comprovante de extrato bancário, livros e tudo que tiver uma superfície que não recuse a caneta. Também sou absolutamente devota da música, tento ouvir de tudo um pouco, porque “quase” tudo tem sua relevância e acho que a música é a mais estimulante das artes. Fora isso, to sempre conversando com minha cadela e tentando descobrir um modo de torná-la mais independente de mim.


Performações Urbanas (2009) Vídeo instalação Bolsa de pesquisa, experimentação e criação artística IAP/ Seleção Rumos Itaú Cultural



Performações Urbanas (2009) Vídeo instalação _ Bolsa de pesquisa, experimentação e criação artística IAP. Seleção Rumos Itaú Cultural.





Você não é Isso (2008) Instalação CCBND, Fortaleza, Ceará



Cidades Vulneráveis (2008) Prêmio SIM de Artes Visuais. Belém, Pará.


Espaço de Intransição (2008) Intervenção Urbana. Belém, Pará.


Travessias Imaginárias (2008) Vídeo Instalação. Prêmio aquisição, Arte Pará. Belém, Pará

Travessias Imaginárias (2008) Vídeo Instalação. Prêmio aquisição, Arte Pará. Belém, Pará.

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