domingo, 22 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Bruno Miguel

Viva o Colégio Óperon.


Jardim para Beuys.
Série Pintura de Museu Paisagem strictu-sensu. MAC Nierói.


Pintura para Vô Barros







Estudando no Parque Lage









Bruno, fale sobre sua vida pessoal.
Nasci em 1981, no Rio de Janeiro, mais precisamente no Leblon, cito isso porque me considero um carioca completo, tipo cara e coroa, até meus pais, que eram comerciantes, se separarem e eu morei em vários bairros da zona sul Humaitá, Gávea, Leblon e Alto Leblon. Passei quase metade de minha vida (até agora) desfrutando da paisagem e os costumes dos cartões postais do Rio de Janeiro. Quando eu tinha uns 13 para 14 anos, mais ou menos, minha mãe, se divorciando do meu pai, decidiu sair do aluguel. A grana que ela tinha não dava para manter nosso padrão de vida na zona sul então ela procurou algo para comprar na Ilha do Governador, bairro que apesar de distante, era simpático, calmo e com valores de imóveis dentro das possibilidades. Mudamos minha mãe, meu irmão mais novo e eu. Desde então passei a conhecer melhor a paisagem e os hábitos da zona norte carioca. Esses dados são importantes para entendimento da "aura" de meu trabalho. Tanto conceitualmente quanto estéticamente.
Como a Arte entrou na sua vida?
Quando vim morar na Ilha, me inscrevi no curso de teatro da nova escola, Colégio Óperon, fiz teatro durante cinco anos, levando a coisa bem a sério, mas com o tempo fui precisando de desafios maiores, aí comecei a escrever, dirigir, fazer a cenografia, pensar os figurinos.Nisso percebi que minha onda não era representar, era criar. Cai de pára-quedas nas artes visuais, nem desenhar direito eu sabia, arrisquei e deu certo.
Qual foi sua formação artística?
Passei no vestubular para Licenciatura em Educação Artística na EBA, UFRJ e de lá não saí mais. Comecei a dar aula quando estava no quinto período da faculdade, minha primeira escola foi exatamente o Colégio Óperon, aqui na ilha. Dei aula em um monte de escolas aqui no bairro, dei aula no Grajaú, em Macaé (trabalhei por 3 anos num projeto de extensão da UFRJ que se chamava UFRJMAR, que levava projetos de educação inovadores para cidades do litoral carioca) No começo de 2010 passei como professor substituto da EBA no Departamento de Pintura e no de Desenho. Minha história com o Parque Lage é mais recente, deve ter uns cinco anos. Fiz cursos livres com João Magalhães, Marcio Botner, Bob N e Franz Manata. Em 2010, passei para o Curso de Aprofundamento da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e tive aulas com Gloria Ferreira, Livia Flores e Luiz Ernesto. Em 2011, me tornei professor da Escola de Arts Visuais. Darei dois cursos , um de férias com o Pedro Varela (que é meu amigo desde a Faculdade) chamado Agora! Desenho e pintura como pensamento contemporâneo e outro com o Luiz Ernesto (meu professor no Aprofundamento) que será um curso para quem quiser se aprofundar em questões de pintura e já tenha alguma experiência, esse se chama Questões prático teóricas da pintura na contemporaneidade. Além disso sou assistente do Carlos Zilio desde 2006.
Que artista influenciaram seu pensamento?
Nelson Rodrigues, Chaves, Martin Kippenberger, MC's Claudinho e Bochecha, Bill Watterson, Mc Magalhães, Van Gogh, Quentin Tarantino, Goscinny e Uderzo, O Rappa, Pablo Picasso, Helio Oiticica, Takashi Murakami, N Night Shyamalan, Los Hermanos, Carlos Contente, João Magalhães, Marcelo D2, Ferris Bueller, Basquiat, Mc Marcinho, Sigmar Polke, Carlos Zilio, MTV, Lazaro Ramos, Guel Arraes, Eduardo Coimbra, Ariano Suassuna, Black eyed Peas, Machado de Assis, Stanley Kubrik, Stan Lee, Gehard Richter, Ives Klein, o cara que inventou a televisão, Amadeo Modigliani, Pedro Varela, Lady Gaga, David Sale, Marcel Breuer, Bispo do Rosário, Terry Richardson, Oscar Niemeyer, Robert Rodriguez, profeta Gentileza, Christo, Cy Twombly, Mister Catra e mais um monte que agora não me lembro.
Como você descreveria o seu trabalho?
Como pintor de paisagem ou... Como uma pesquisa sobre o tempo da e na paisagem pensado a partir de possíveis construções e representações da mesma. Utilizando para isso um "pensamento pictórico" como ponto de partida e agregando a ele minhas referências, a história da arte, mídias e cultura popular. Ah, e também é algo com doses de prazer, diversão e beleza com "leves" camadas de ironia e humor.
Você é professor da EBA e da EAV do Parque Lage, que diferença você vê entre as duas instituições?
Então... Eu começei a dar aula no Parque Lage na semana passada, na EBA no começo de 2010. Acho que ainda não posso expressar uma opinião de como é ser professor na EAV, na EBA, fui aluno por mais de 10 anos e acho que conheço bem os prós ou contras de lá. Eu acho que, na verdade, as duas instituições se completam. Falo muito isso para os meus alunos da EBA. Na universidade além da possibilidade de uma formação ampla, tem a questão do tempo do curso, que obriga o aluno a viver a coisa de um outro ritmo, tem que estudar o que gosta e o que não gosta (acho isso importante) tem que ficar tres anos tendo aula no atelier, mas a EBA tem o problema geográfico, é fora do mundo real, os alunos ficam literalmente ilhados e tem pouco contato com arte contemporânea, essa é grande lacuna a ser preenchida, criar a ponte de uma educação para artes com vocação acadêmica, com circuito e mercado. Na EBA ainda tem alguns professores que declaram opiniões do tipo: arte contemporânea é uma grande palhaçada. Ou então, na arte, nada produzido depois de 1950 tem valor, e aí fala isso para um cara de 18, 20 anos que muitas vezes chega na faculdade de artes achando que o modernismo está aí até hoje como a última moda, pronto. Está selado mais um caixão! A grande lição da EBA é que se você entender como ela funciona, se entender o que falta em cada um dos cursos existentes na escola e for atrás de complementar as carências, você pode se dar bem. Mas acaba dependendo muito mais do aluno do que do professor. Agora no Parque Lage a coisa é muito mais dinâmica, cada um escolhe o que quer fazer, os professores são mais inseridos o que facilita a inserção dos próprios alunos. Acho que o Parque está passando por um momento super importante, que é dessa democratização dos cursos através das bolsas da fundamentação e do aprofundamento, além dos cursos de produção que a escola está oferecendo. Talvez essa fosse a iniciativa necessária para ligar as duas escolas porque com a fundamentação, por exemplo, muitos alunos da EBA estão cursando a EAV desde o começo de seus cursos e isso que meio dá uma vacinada na galera contra vírus reacionários que ainda habitam algumas salas da EBA . No meu mundo ideal, o aluno faz a EBA e complementa com o Parque Lage.
Como você compatibiliza as duas funções de artista e professor?
Dormindo menos do que gostaria rs...É difícil, principalmente porque eu trabalho muito, tanto como professor, quanto como artista. Além disso sou assistente do Carlos Zilio faz uns quatro anos, é o melhor emprego do mundo, ganho para aprender, é uma tarde na semana fundamental para mim. Eu sempre fui muito pé no chão. Quero viver do meu trabalho de artista, mas sei o quanto é difícil e demora a acontecer. Por isso fiz licenciatura primeiro, é a minha âncora, que paga as minhas contas do dia a dia e me permite continuar produzindo meu trabalho com independência. Eu acredito que seja a melhor co-profissão para um artista, porque me permite continuar estudando e me reciclando permanentemente. Dei aula uma década para crianças e adolescentes, confesso que já estava de saco cheio Dar aulas para adultos está sendo muito mais compensador intelectualmente. Mas hoje em dia começo a ter como plano a médio prazo, ficar um pouco mais de tempo no atelier e menos na sala de aula.
Qual sua opinião sobre o ensino da Arte no Brasil?
O erro está na base. A maior parte das escolas não dá muita importância ao ensino de artes. Vira meio tarefa de lazer, quem quer, beleza, quem não está afim faz qualquer coisa e passa no final. Eu acho que a principal mudança a ser implantada é fazer que os professores de educação artística se atualizem e mudem sua postura frente as ementas. Acho que uma aula de artes tem que ser muito menos ensino de como se faz trabalhos artísticos e muito mais de como se pensa em um. Tem que entender que os exercícios devem ser para a cabeça e não para a mão. Eu quando lecionava em escola sempre tinha como foco fazer a molecada ter um pensamento criativo, iniciativa, segurança e senso crítico. Mostrar a interdisciplinidade das artes visuais com a sociedade através desses aspectos. Relacionar com outras profissões que lidam com a criação. E dentro dessa abordagem ir pincelando história da arte. Tem que ir desenvolvendo uma disciplina do hábito da criação e do senso crítico. Do refletir. Disciplina é bom nesse sentido, tipo atleta que tem que se manter treinando para ir se aprimorando, exercitar esses aspectos deveria ser algo cotidiano.Acho que teriamos uma sociedade menos indiferente em muitos aspectos (como o político, por exemplo) e preparariamos além de posíveis artistas o público para entender melhor a arte do seu tempo.
Que conselho você daria a um aluno para ter êxito em sua carreira?
Disciplina para o trabalho, foco nos objetivos e tempo para o lazer. Um não funciona sem os outros. E tem que fazer o que gosta também. Em artes, sentir prazer no que faz tem que ser obrigatório. Se for para achar chato, vai trabalhar numa atividade burocrática que dá para ganhar mais na maioria das vezes. Disciplina. Errar é fundamental desde que você aprenda com os erros. E nunca se acomodar. Acho que isso enterra qualquer carreira. O Zilio quando me orientou no meu projeto final citou uma frase do técnico de futebol da década de 60, Gentil Cardoso, dizendo que eu a ilustrava muito bem. Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência, acho que ela vale como um bom conselho.
Como você me mantém atualizado?
Livros, internet, rádio, conversando com os amigos. Além de continuar estudando.
Além dos estudos, o que influencia a formação de um artista?
Se ele tiver bons olhos e ouvidos, todas suas relações e o mundo à sua volta.
Quais são seu planos para o futuro?
Consolidar minha carreira de artista, viajar mais e ter mais tempo livre.
O que você faz no seu tempo livre?
Vou ao cinema, vejo futebol (sou flamengo doente), estou com meus amigos, dou uma namorada.
Bruno Miguel deu um excelente depoimento, abordou de modo claro sua experiência como docente e nos fez entender a gênese de sua obra. Essa entrevista enriquece o leitor. Bruno muito obrigado por sua colaboração e permanente gentileza.

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