terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Augusto Herkenhoff



Augusto Herkenhoff

Augusto Herkemhoff tem uma produção de qualidade e de grande volume. A sensação é dele trabalhar dia e noite. Educado e simpático é figura agradável. Sua generosidade é conhecida. Desenho, gravura, pintura e mais raramente com escultura são seus meios de expressão. Augusto obrigado por sua participação e que o sucesso seja permanente. Abraço.


Fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci no Espírito Santo, em outubro de 1965. Meu pai estudou Economia e Direito. Foi advogado, diretor e um dos fundadores da Faculdade de Direito de Cachoeiro de Itapemirim. Minha mãe é o que é: nunca trabalhou para fora. Teve muitos filhos. Tenho sete irmãos vivos. Minha mãe gosta de pintar porcelana, tem forno especial para isso. Motivos quase sempre florais em aparelhos de jantar, chá etc.Sou tecnico em Contabilidade 1983 e Bacharel em Direito Faculdade Candido Mendes 1988.

Como foi sua formação artística?
Antes da artística, ou simultaneamente, estudei contabilidade na Escola de Comércio, que pertencia à minha família, e havia também na mesma escola o Ginásio São Pedro de Cachoeiro de Itapemirim. Depois fiz Direito no Rio, na Cândido Mendes. Mas desde a infância sempre convivi muito com livros, literalmente alguns milhares, tanto na biblioteca de meu pai quando na da escola. Desde criança, curti álbuns de figurinhas, selos, cartões postais, fotografias. Colecionava e vendia. Nunca tive sentimento possessivo exagerado por esses conjuntos que valorizo. Na Faculdade de Direito um professor me disse claramente que eu não iria advogar, apesar de exemplos na família. Minha primeira formação portanto foi a partir de livros em família. No Rio, aprofundei os estudos, estudei Estudei no MAM-RJ, fui figura constante no Parque Lage antes e no auge da Geração 80. Pintei a quatro mãos algumas vezes com Jorginho Guinle. Num certo período, eu ia a vernissages toda semana. Fiz cerca de quinze viagens ao exterior nos últimos 17 anos e vi o que pude: os melhores museus e a melhor arquitetura de grandes capitais na Europa, nos Estados Unidos e na América do Sul.Sou tecnico em Contabilidade 1983 e Bacharel em Direito Faculdade Candido Mendes 1988.Estudei no MAM -RJ e Parque Lage -EAV. Durante 10 semestres consecutivos estudei com Ronaldo do Rego Macedo e Katie Van Scherpenbeng.10 semestre com cada. As vezes me davam bolsa, as vezes eu não pagava. E outras vezes eu pagava.Não tinha dinheiro. Aprendi tudo com eles dois. Foi uma ajuda decisiva. Bons tempos.tinha 20 anos de idade.Bati o recorde



Que artistas influenciam seu pensamento?
As influência são muitas, mas eu destacaria Andy Warhol, como emblema do que atribuem ao meu trabalho, não sei se corretamente, mas vêem em mim um pop pós expressionista. Destaco também como influência a sensualidade meio obtusa de Di Cavalcanti, seja nas pinturas , seja nos desenhos e nas gravuras.O velho Comunista modernista era um virtuose , sabia viver e ajudar as pessoas que dependiam dele.É na minha opinião o Maior artista brasileiro de todos os tempos. Sem menosprezar ninguem.Tem uma obra vasta. Mas por problemas judiciais poucas publicações em livros ou catalogos.Tem gente que se considera dono de Di Cavalcanti.E juridicamente falando faz o que quer...


Como você descreve sua obra?
Minha obra é a de impulso, eu tendo ao ímpeto.ao vamos que vamos. Não tenho medo de errar. Destruo e reconstruo muito do que faço. Meus desenhos têm extrema tensão, com poucos traços e marcas.. Meus trabalhos em tela, , são recorrentes, retornam ciclicamente. Sobrevivem das minhas obsessões. Sou apaixonado pelas cores, . Minhas obras tendem, na maioria, a exibir, uma generosidade do gesto, das camadas. Nunca fui econômico nas tinhas importadas. Mas já tive momentos de privilegiar quase uma monocromática, grandes telas amarelas. Gosto de experimentar e revisitar experimentações já feitas. Tenho um prazer visceral em pintar, para além das reflexões sobre movimentos artísticos, do tipo neoconcreto, conceitual e tantos outros. Já tive fases em que produzi obras tridimensionais, seja na tradicional escultura em bronze, seja mediante inscrustrações na pintura na tela, de botões de roupa a contas coloridas de colares baratos, e incrustrações de peças maiores, como o violão que cravei na tela com homenagem ao design do LP Transa, de Caetano Veloso, aliás, Caetano excelente neste disco londrino. Este trabalho, a propósito, me valeu o prêmio do Salão Nacional de 1995. Não entro no mérito desse prêmio em si, , mas foi muito bom porque, com o primeiro lugar, ganhei do Estado uma boa viagem à Europa e ainda a edição de um livro-catálogo. Creio que me confundo com minha obra. Também pinto no meu próprio corpo, o rosto especialmente, e depois fotografo. Tenho centenas de imagens como se eu fosse personagem de teatro, o ator da pintura, como se eu fosse a tela cênica e viva da pintura, seja maquiagem ou tinta ou qualquer coisa que me mude enquanto visualização. Tenho uma fase ou uma tendência também a valorizar o rosto como emblema da tradição pictórica de Vanitas. E haja caveiras,não perdi a conta de quantas vanitas fiz, de grandes telas com livros, globo terrestre, caveira etc, a vanitas com o meu rosto vivo, pintado ora de vascaíno, ora de rubro-negro que sou, ora de nordestino, ora de fidalgo brasiliense. Minha obra tem humor ligado ao tempo e suas cores e linhas. Sei porque rio dessas cores e linhas e e pessoas que as vêem e as compram gostam de rir também. São obras que reverenciam o tempo, seja este conceito ou vivência, mas sempre elemento vita , não importa se com emoção ou racionalidade, mas sempre presente em tudo o que fazemos. Toda a minha obra tem de ser vista como o meu tempo plástico. Mas gosto de ver também o que os outros fazem. Por isso não me sobra aquele outro “tempo” - Faço e respiro arte 24 horas por dia.



Que exposição sua você considera a mais importante?
Do ponto de vista da emoção, da expectativa a exposição mais importante é sempre a próxima. Não tenho distanciamento suficiente para analisar as mostras passadas.Mas elas são as partes de um todo. Destaco algumas: a que fiz na Galeria Candido Mendes , desenhos de caveiras, , em papel 1991 . A mostra , com 27 telas em Ipanema, na Casa de Cultura Laura Alvim, todas retratando memorabilia capixaba 1993 . Gosto da fase amarela, grandes quadros naquele amplo espaço do Centro Cultural Light antigo do Rio 1996 .Os doutores de 2000 na Galeria Macunaíma... Sei lá ! A exposição mais importante não é comigo. Gosto de uma intitulada Papeis, eu fiz na Toulouse no Rio 2007 Quem pode dizer da importância de um trabalho é o tempo, que se encarrega de levar e trazer, depurar. E isso vale para a nossa critica especializada. Tempo , precioso tempo.



Como você faz para divulgar a sua obra?
Divulgo minha obra no boca a boca, torço para que a instituição acolhedora de uma exposição faça um bom trabalho de comunicação junto à mídia, coloco imagens na internet, converso, ofereço e vou nesse" vale tudo" da vida, Existe um lado meu, sempre presente no meu dia a dia, que não é este de um artista das imagens. Para além da minha criação, eu compro e vendo obras de arte com a mesma desenvoltura que as produzo. Eu troco, eu dou, presenteio gente na rua, gente que nem conheço. Faço negócios, bons negócios para ambos ao lados. Minha presença é uma constante divulgação de meu trabalho. Eu, literalmente, vivo da minha obra. Quando surge alguém, ou uma galeria interessada em me vender, eu me vendo, negocio sempre. Costumo brincar dizendo que só tem uma coisa melhor do que vender: é comprar. Eu poderia ser professor de arte, poderia ser um mau advogado, eu poderia ser um razoável psicanalista, aliás, fiz análise por alguns anos. Mas eu não poderia deixar de ser uma única coisa, que é o que sou: artista que me divulgo produzindo, comprando e vendendo o tempo inteiro. Não sou um carreirista superficial compremetido com amigos.Não faço parte de clubes.Aprecio a ética .

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
A convicção de que vale a pena viver, trabalhar, estudar, buscar o melhor de si o tempo todo. Um bom filme me estimula, um bom jogo de futebol me estimula. Meus dois filhos, Mathias e Germana, me estimulam. Minha família me estimula. As amizades. Os estímulos estão flutuando, e saber pressenti-los e reconhecê-los são uma garantia de que até na loucura deve prevalecer a saudável confraternização.Tenho grandes dúvidas,ainda. Mas essas certezas são as que me estimulam.Tenho enormes duvidas.Mas essas certezas me estimulam.
Você tem uma rotina de trabalho?
Trabalho sempre.Seja fotografando a obra, ou fotografando meus devaneios.Sempre desenho. e seleciono os desenhos.Tenho rotinas diversas : na grande maioria dos meus dias, sou quase como passarinho: durmo cedo e acordo quando mal raia o dia em Petrópolis, onde vivo na minha casa acoplada ao ateliê. Trabalho de manhã e de tarde. À noite, só raramente. Só não durmo cedo quando estou no Rio de Janeiro ou viajando. .


Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte?
Gosto, mas, claro, algumas edições são boas, outras, não. Bienal não tem o compromisso pragmático das feiras, que visam a compra e venda de obras de arte. Gosto das duas oportunidades. Não tenho nenhum preconceito com o que é comercial. Tudo é comercial. Uma latinha de Piero Manzoni, qual lata de pasta de atum, com os dizeres “merde d’artiste”, vale hoje mais de 100 , 300, 600 mil dólares. As fezes secas do artista italiano já falecido estão se valorizando comercialmente? Ou a/ esteticamente? Feiras e bienais são oportunidades para se vender obras, ideias e vaidades.Dialogos.contemporâneos Gosto, sou da arte.Vou a Bienais desde 1985 Aliás, participei de um projeto periferico na Bienal do Mercosul . Já fui a feiras, incluindo uma enorme na Colômbia.Miami e Londres

Quais são seus planos para o futuro?
Torcer para o Flamengo fazer e acontecer, chorar pessoas queridas que se vão, jamais furar a fila nessa certeza de que todos iremos, ainda que não saibamos dos nossos prazos de validade. Continuar trabalhando e conservando minha obra.

O que você faz nas horas vagas?
Eu as desconheço, ainda.



Lembranças dos Anos 70. Acrílica sobre tela 120x120 cm.


Ruschi. Acrílica sobre tela 250x100 cm., 1993 Foto: Eduardo Câmara.


Tudo que você Precisa para Ouvir Acrílico e napa sobre tela, 1990.








Roberto Carlos




Exposição


Velhos Pincéis


Augusto Herkenhoff _ XV Salão Nacional de Artes Plásticas: FUNARTE, 2000









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