segunda-feira, 23 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Antonio Malta Campos

Antonio Malta Campos




2010 trabalho terminado no ateliê.



Trabalho apresentado em 2007 Pinta Art Fair, Nova York.


Aquarela



Pintura realizada na Casa 7 Coleção particular.





2007. Galeria Virgílio.




Você poderia contar algo de sua história pessoal?
Nasci em São Paulo, em 1961. Minha família é daquelas antigas. Os Alcântara Machado de Oliveira, família do meu avô materno,remonta a 1538... Minha mãe Maria Machado Malta Campos é pedagoga, pesquisadorada Fundação Carlos Chagas e professora da PUC SP. Meu pai Cândido Malta Campos Filho estudou na FAU USP, onde é professor. É arquiteto e urbanista. Eu estudei na Escola Bola de Neve até a 3ª série do primário; depois, morei com minha família em Berkeley, na Califórnia, dois anos (1970 a 1972). Na volta, fui para o Vera Cruz e fiz parte da primeira turma do Ginásio dessa escola. Em 1977, fui para o Colégio Equipe, o que foi determinante para minha formação de artista plástico. Poderia ter ido para o Santa Cruz, mais tradicional e com instalações melhores, mais optei pelo Equipe porque todos os jovens artistas estavam indo para lá. Meus colegas no Equipe: Rodrigo Andrade e Marcelo Fromer (minha classe); Branco Mello, André Millan, Cao Hamburger, Fábio Miguez, Carlito Carvalhosa, Paulo Monteiro, Nuno Ramos, Arnaldo Antunes, Leda Catunda, Beatriz Bracher, Nando Reis e outros. Quem organizava os shows de sábado era o Serginho Groisman.Tocaram lá: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Luiz Melodia, Macalé, Cartola, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus e outros. Tive um professor de Artes ótimo, o Gilson Pedro, que organizou a Feira Medieval, em 1977. O movimento estudantil era forte no Equipe, havia assembléias, greves... Jogávamos muito futebol; mas, principalmente,produzíamos muito: desenhos e histórias em quadrinhos. Publicamos três números da revista Papagaio!, custeada pelo colégio. Era uma iniciativa dos alunos, apoiada pelo colégio, mas sem interferência editorial da direção do Equipe. Papagaio!, junto com a Boca, Balão e outras, faz parte da história das revistas marginais dos anos 70,quando havia censura à grande imprensa. Entrei na FAU USP em 1980, com Fábio Miguez e Carlito Carvalhosa. A FAU é uma faculdade de arquitetura, mas eu não queria ser arquiteto, nem eles. Não optamos pela ECA, pois diziam que era ruim. A FAU tinha mais tradição e era mais aceita pelas famílias. O ensino da FAU é razoável, mas depois de um primeiro ano especialmente chato e desinteressante (para mim),passei a faltar nas aulas para ficar pintando e desenhando em casa.Isso foi uma burrice, pois acabei terminando o curso mais de dez anos depois de entrar. Fábio também demorou para se formar. Carlito se formou em cinco anos

Quando você decidiu ser artista? Qual a posição da família?
Minha família se preocupa, e eu também... é difícil ganhar dinheirocom Arte. Meus amigos artistas, que nasceram em famílias menos ricasque a minha, sobrevivem de Arte e outras atividades, como DesignGráfico, mas levam uma vida muito irregular do ponto de vistaeconômico. Alguns não tem casa própria ainda. O artista depende dosucesso. Os que conseguem sucesso, como Nuno Ramos, podem (ou não)atingir a estabilidade financeira, mas não é fácil. Eu decidi serartista naquele ano fatídico de 1976, quando resolvi ir para o Equipe. Outra decisão importante foi fazer a FAU e não outra faculdade, comoEconomia, por exemplo. Eu poderia ter optado por Economia, e quem sabetrabalhar em banco, e pintar nos finais mana... se pudesse voltarno tempo, talvez fizesse isso. Não sei se daria certo... será quetenho perfil de banqueiro? Acho que não. Criar, inventar pinturas edesenhos, faz parte da minha natureza; as pinturas me ocorrem a todomomento; tenho um repertório mental, pois leio muito. Mas isso já faz parte da próxima pergunta.

Qual foi sua formação artística?
Livros. Essa é a minha formação. Livros de Arte, ou sobre Arte. A maioria, importada. Essa cultura européia e americana é importante.Acho que para todo mundo é assim, pois o Brasil (como os EUA) é um posto avançado de uma civilização que começou na Europa. O outro lado da minha formação é a prática diária do Desenho e da Pintura, ou do que eu sentir vontade de fazer. Essa prática se dá fora das escolas de Arte. Fiz FAU, que não é uma escola de Arte, e meu trabalho artístico nunca foi avaliado ou submetido a uma avaliação acadêmica, universitária. Meu mestrado na FAU foi uma dissertação escrita sobre meu trabalho artístico realizado até então. Não houve discussão sobre os rumos desse trabalho para o futuro, e os professores se abstiveram de entrar nesse mérito (a única que opinou foi a Sônia Salzstein,professora da ECA que eu convidei para a banca). Diria, então, que faço parte de um universo de artistas que têm uma formação praticamente autodidata. Como é uma comunidade grande, de artistas que fizeram o Colégio Equipe, isso acaba funcionando como uma escola, ou quase. Será que na ECA eu teria dificuldade com o ensino? Discutiria com os professores, se eles não gostassem do que eu faço? Não sei. Só sei que tenho total liberdade para fazer o que quero, e isso é fundamental. Se vender, vendeu... se não, eu guardo

Que artistas influenciaram seu pensamento?
Picasso e Klee. Matisse, um pouco. Guston é muito bom. Todos os antigos, de Leonardo a Courbet. Os impressionistas. Adoro o Cubismo.Os abstratos também são importantes, mas a abstração pode levar a Pintura a um impasse. Afinal, a Pintura é uma arte figurativa; é uma imagem, como a Fotografia. Muita gente acha que não, mas é. É uma imagem feita com tinta, não é? Dá para ser realista ou menos realista. Figurativo ou abstrato. Ou misturar tudo. Todas as possibilidades estão abertas.

Que experiência ficou da Casa 7?
A Casa 7 foi uma experiência importante, mas eu saí desse ateliê logo no começo, em 1983. Nunca participei de uma exposição com o ateliê Casa 7. É preciso deixar claro: o grupo Casa 7 que ficou para a História é composto por Rodrigo Andrade, Paulo Monteiro, Carlito Carvalhosa, Fábio Miguez e Nuno Ramos (esse último entrou logo que eusaí). Sou amigo de todos até hoje. Sair da Casa 7 foi mais uma decisão intempestiva, entre outras da época. Não pensei nas consequências. Se pudesse voltar no tempo, não teria saído, pois pouco depois que eu saí o grupo fez bastante sucesso. Mas fiquei próximo de todos e observandotudo. É a minha geração.

De que maneira a Arquitetura influencia em seu trabalho?
Gosto de arquitetura e pratico arquitetura quando necessário, mas Pintura é uma coisa, Arquitetura, outra. O projeto concretista dos anos 50 uniu tudo isso sob a bandeira da modernização industrial. Mas esse projeto implica numa linguagem abstrata, moderna. Pense em Design, Projeto, padronização, Indústria. A pintura que minha geração começou a praticar nos anos 80 não era nada disso; era uma experiência figurativa/abstrata informal e fundamentalmente pictórica. Isso, até mais ou menos 1984, 85. Pense nos painéis em esmalte do grupo Casa 7. Depois, veio a abstração matérica e outras coisas, e de certa forma há um conflito, uma tensão, que é interessante. Atualmente, os artistas que eram abstratos e matéricos estão voltando com a figuração... tudo dá voltas o tempo todo. Continua na próxima pergunta....>

Você poderia comentar seu trabalho?
Bom, então foi assim: nos anos 80, fazíamos pintura figurativa. Neo-expressionista ou não. Ou mesmo abstrata, mas numa vertenteinformal (e não geométrica, como era o Concretismo). Na Bienal de1985, a pintura Neo-expressionista entrou em crise, em função dopastiche. A partir daí, uma série de soluções foram propostas. Voucolocar o problema como eu vejo: se você faz Pintura como ela semprefoi feita, você faz uma Imagem. Aí, você não está combatendo oilusionismo, a perspectiva, nada disso. Você faz uma imagem. É o quefaço, com eventuais idas e vindas, figurações e abstrações. Faço desdefiguração mais tradicional, tipo natureza morta, até uma figuraçãomais inventada, bem criativa e pessoal, muitas vezes beirando aabstração, e isso é o meu trabalho mais autoral. Atualmente divido atela em partes iguais e faço uma pintura que lembra uma HQ, na suadivisão espacial, mas não é uma estória, e sim uma composição repetitiva sem sequência definida. Existe uma relação com o Minimalismo aí. É uma espécie de mistura, onde entra Picasso, HQ, Guston, Eva Hesse, Leonardo da Vinci e Pop Art. E Minimalismo. Até Concretismo, porque não. Tudo vira Pintura - é uma imagem, uma ilusão,como queiram. Mesmo se a tinta for grossa, matérica. Nunca fui totalmente abstrato e matérico, como muitos. Simplesmente porque a pintura acaba onde a matéria começa. O exemplo perfeito é Nuno Ramos. Suas pinturas matéricas tridimensionais feitas com objetos, detritos,tinta etc são o oposto da imagem lisa feita de tinta, ilusionista, dapintura tradicional. Se você quer fazer pintura, não é uma questão de matéria, e sim de figura pintada, representada. O que os matéricos faziam era anti imagético, pois era físico e objetual. Agora, muitos estão voltando para a narrativa e a figuração, inclusive Nuno.
Há comentários sobre eventual rivalidade entre artista de Rio e São Paulo. Qual sua opinião?
Só no futebol. Difícil aguentar flamenguista empolgado. Mas são-paulino é pior ainda.
A galeria é importante para a carreira do artista?
É importante para vender e ganhar dinheiro.
Você mantém contato com os espectadores?
Sempre que possível
Alguns poucos artista brasileiros conseguem projeção no exterior. Como é possível mudar essa situação?
Isso está mudando. O Brasil tem mercado, então muitos se acomodam por aqui mesmo. Para vender no exterior é preciso expor em feiras, ser conhecido dos curadores internacionais e ter obras nos museus internacionais. Tenho esse projeto e viajo para Nova York todo ano.Uma vez mostrei uma pintura lá, na Pinta Art Fair. Foi interessante.Os americanos são muito sérios e observadores. Muitos vieram falar comigo, inclusive o publisher da Artforum, aquela revista famosa.
Você poderia citar suas principais exposições?
Anos 80: APTO 13, no Centro Cultural Sao Paulo, em 1985 (com Maina Junqueira). Nos anos 90, expus pouco. Fiz uma individual no SESC em 1999. Em 2004 e 2007 expus na Galeria Virgilio. Minha penetracao institucional é minima, mas pretendo mudar isso com uma exposição em museu?
Você sugere algo para divulgar a arte no Brasil?
Sim: menos apoio estatal e mais mercado. Museus com mais dinheiro e que comprem. Mas com dinheiro privado. O Brasil tem muita empresa estatal, muito edital. Não gosto muito disso. Prefiro mercado forte

O que você faz em suas horas vagas?
Pinto... Viajo. Desenho. Adoro computador. Jogo futebol. Leio muito.




Antonio sou grato por sua rica entrevista, pela cordialidade mostrada em nosso contato. Muito apreciei sua inteligência e preparo. Os leitores terão a compreensão da sua trajetória, dos suas dúvidas e entenderão melhor como situa sua obra. Espero vê-lo em breve.

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