sábado, 21 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Alvaro Seixas


Alvaro Seixas
Alvaro Seixas da nova geração que acredita na pintura. Um trabalho sério e de qualidade. Representado pela Amarelonegro Arte Contemporânea. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.


Alvaro, conte um pouco de sua vida.
Nasci no Rio de Janeiro, em 1982. Na minha infância e juventude morei na cidade de Nova Friburgo. No final de 2001, me mudei para Niterói, já que iria começar a estudar Pintura na Escola de Belas Artes da UFRJ.

Como apareceu a arte em sua vida?
O contato mais próximo especificamente com as artes plásticas começou muito cedo, antes dos dez anos de idade e, sem dúvida, deve-se ao meu pai, que é psiquiatra e artista plástico...lembro-me dos anos 90, de remexer os livros antigos e arquivos em nosso apartamento, ainda em Friburgo, e de “descobrir” nomes como Van Gogh e Georges Rouault. O contato [por imagens em livros exclusivamente] com a obra do Rouault, aliás, foi um fato importante para que eu pensasse em ser artista. Nessa época, lia e via o pouco que conseguia localizar sobre ele e também sobre os fauvistas e os expressionistas – já que a internet ainda não era tão densa quanto hoje [no que se refere a informações disponíveis e compras de livros importados]. De repente, começaram a aparecer muitas outras figuras, sempre ligadas à pintura – desde o Grupo Co.Br.A, passando pelo Cy Twombly até o Basquiat.

Qual foi sua formação artística?
Bem, depois de concluir minha graduação na Escola de Belas Artes, fiz mestrado em Linguagens Visuais também na EBA. Acabo de começar meu doutorado, também em Linguagens e na mesma instituição, onde estão importantes professores como Milton Machado [artista plástico] e Paulo Venâncio [curador e crítico de arte]. Não fiz cursos em paralelo, a não ser conviver com amigos artistas e que considero figuras de valor para minha formação, como Rafael Alonso e Hugo Houayek.

Quais artistas influenciaram seu pensamento?
São muitos, mas vou tentar ser econômico. De início eram nomes associados ao expressionismo e a influência era mais visual, o Rouault. Depois, outros apareceram: o Kazimir Malevich, expressionistas abstratos como Franz Kline, o Twombly e os Neo-Expressionistas. Durante o mestrado, passei a me interessar mais intensamente pela pintura e pelos escritos do Gerhard Richter.

O que significa ser um pintor no século XXI?
Essa atitude pode significar várias coisas. Uma vasta gama de artistas contemporâneos ilustres, com uma igualmente vasta gama de discursos, tem se valido da pintura ‘tradicional’ – os nomes vão desde o Luc Tuymans até o [polêmico] Damien Hirst. Eu, desde 2003, tenho explorado principalmente a noção de “arte abstrata” na pintura – mas, não me interessam apenas os aspectos formais que convencionamos chamar de “abstração”, mas também os embates discursivos que estes objetos [pinturas abstratas] vêm deflagrando desde sua concepção pelas vanguardas. A abstração na pintura pôde [e ainda pode] representar a mais pura essência da arte; afirmar a “morte”, monocromática, da própria pintura pela lógica; servir como degrau para formas mais evoluídas de arte; ser a projeção direta de sentimentos ocultos; constituir um agradável complemento decorativo para interiores; afirmar um gesto político...


Você tem uma rotina de trabalho?
Costumo pintar num dos dois quartos do apartamento onde moro, em Niterói. Gosto de acordar e ir direto para esse quarto para analisar ou dar prosseguimento aos meus trabalhos; ou trabalhar até bem perto da hora de ir dormir. Mas, parece-me que a “rotina” de trabalho de um artista [e especificamente de um pintor] não termina necessariamente no que geralmente chamamos de ateliê. As instalações formadas por pinturas, que venho fazendo há alguns anos, me lembram que a prática de um pintor [ou de um artista] pode se estender também a montagem e apresentação de suas próprias exposições [ou intervenções]. Há, ainda, atividades como mestrados, doutorados, escritos, aulas, palestras, seminários e entrevistas [como esta]. Uma “rotina artística” pode, portanto, permear os atos de pintar, ouvir, falar, ler, escrever, etc...

Qual sua opinião sobre os salões de arte?
Fomos habituados a nos referir aos salões como algo tradicional e retrógrado, mas nos esquecemos que são instituições artísticas mais jovens do que os muros das ruas. Houve o salão que rejeitou o agora famoso ready-made de Marcel Duchamp e que, por sinal, foi tão fundamental para a arte moderna e contemporânea como foram os Salões de Outono, que, longe de rejeitarem, lançaram movimentos como o Fauvismo. Atualmente, temos mais presentes os editais para programas de exposições, os mapeamentos, os prêmios de intervenções urbanas e, mais recentemente, as indicações para prêmios de investimento – todas essas “novas” instituições são importantes para o debate artístico atual – tanto quando “rejeitam” como quando “lançam” nomes.

Qual o significado para você de uma Bienal?
Ainda não tive a oportunidade de visitar nenhuma edição das famosas Bienais lá de fora e meu primeiro contato direto, e talvez o mais marcante com uma Bienal, foi em São Paulo, no ano de 1998 [curadoria do Paulo Herkenhoff]. Foi a primeira vez, também, que vi de perto obras de um importante artista do século XIX [Van Gogh], próximas as de nomes das vanguardas como o René Magritte e outros do pós-guerra como Francis Bacon, Alberto Giacometti e o Co.Br.A. Lembro-me que esta grande e importante seleção de obras “históricas” foram também permeadas por “contaminações contemporâneas” [como foram chamadas as obras de artistas atuais, que eram expostas estrategicamente permeando os núcleos históricos]. Para mim, portanto, essa bienal adquiriu esse significado especial: poder ver de perto a tão citada “tradição” ou “História da Arte” [que via apenas reproduzida por imagens nos livros], relacionada a obras e questionamentos contemporâneos. Não estou, com isso, negando a importância das Bienais posteriores, que dão ênfase às artes contemporânea e atual.

Quais são seus planos para o futuro?
Dar prosseguimento a minha “rotina artística” [risos].


Instalação com pinturas Sem título (detalhe) Galeria Amarelonegro, Rio de Janeiro. Foto Gisele Camargo.

Instalação Sem título, 2011 Galeria Amarelonegro.

Sem título. 2011. Óleoe esmalte sobre tela. 30x20 cm.

Sem título. Óleo, esmalte e verniz sobre tela. 40x30 cm.

Paisagens, vista da exposição Rumos: Trilhas do Desejo. Paço Imperial, Rio de Janeiro

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