terça-feira, 17 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Alexandre Mancini


Alexandre Mancini


Alexandre Mancini é mineiro, vive e trabalha em Belo Horizonte. Continuador de uma bela tradição brasileira a azulejaria. Tinhamos a impressão de que ela havia morrido, mas ao tomar conhecimento da obra do artista, percebi ser ele o seguidor dos grandes mestres que o antecederam. Parabéns Alexandre e sucesso. Obrigado pela participação.


Fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci em Belo Horizonte em maio de 74. Aqui me criei e sempre vivi... tenho uma profunda relação com minha cidade natal. Aliás, meus ascendentes italianos (por parte de pai) chegaram aqui em 1911, início da formação da então Nova Capital do Estado.
O ambiente familiar onde cresci sempre foi muito rico de ensinamentos e valores apesar de não haver, necessariamente, uma cultura artística. Meus pais sempre ofereceram a mim e meu irmão uma vida confortável, mas sem luxos exagerados, propiciando-nos uma boa educação em colégios particulares. Temos até hoje uma relação de muita união e cumplicidade.
Estou casado há pouco mais de três anos com meu grande amor e temos uma linda filha de um ano e quatro meses, a paixão de nossas vidas. Minha esposa é uma designer de jóias premiada, mas a vejo como uma grande artista... Em nosso dia a dia conversamos muito sobre arte e estimulamos um ao outro a criar cada vez mais. Com o nascimento de minha filha experimentei uma grande mudança em meus desenhos já que anteriormente utilizava basicamente o preto e o branco com pinceladas de amarelo e vermelho e desde que ela chegou meus painéis começaram a utilizar cores, muitas cores.
Duas figuras familiares foram fundamentais para o meu despertar na azulejaria brasileira: meu pai que ao me mostrar os quatro cantos de Belo Horizonte com sua arquitetura e arte integrada me ofereceu um encontro com uma profunda identidade; e meu avô materno, homem de profunda cultura, que foi um dos pioneiros de Brasília. Suas histórias sobre a construção da Capital foram fundamentais para a criação pessoal de um imaginário, ainda criança, que se transformou posteriormente em uma íntima relação com a arquitetura moderna brasileira. Outro fator importante para meu trabalho foi o fato de morar por quase vinte anos na região da Pampulha, a cerca de cem metros da Igreja de São Francisco. Esta proximidade com as obras de Niemeyer, Portinari, Burle Marx, Ceschiatti e tantos outros se revelou fundamental. Ainda hoje preservo este elo, pois meu ateliê se situa nesta casa.

Como foi sua formação artística?
Sou um artista autodidata. Não freqüentei nenhuma escola de arte e toda a bagagem que tenho veio de muito estudo pessoal e da experiência adquirida com o tempo. O ambiente em que fui criado descartou muito cedo a arte como profissão e, por isso, me direcionei para áreas mais conservadoras. Cheguei a fazer faculdade de administração, mas larguei no meio do curso, pois sabia que não era para mim.Entretanto, tudo que propus fazer profissionalmente me desagradou. E em 2004 fechei uma pequena empresa de decoração de porcelana e vidro para dar o grande passo da minha vida: criar arte em azulejo. Estudei por três anos sobre a azulejaria brasileira através de livros, artigos acadêmicos, internet, viajando, entrevistando e ouvindo histórias. Ao mesmo tempo desenhava incessantemente e aprendia as técnicas produtivas do azulejo. Em 2006 me julguei pronto para iniciar os trabalhos e desde então sinto, a cada dia, o encontro com vocação e a paixão de criar painéis de azulejos.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Tenho em Athos Bulcão a maior referência. Tive o imenso prazer em conhecê-lo pessoalmente, já no final de sua vida. Fui visitá-lo no hospital Sarah, em Brasília, e lá pude agradecê-lo por todos os ensinamentos que mesmo sem saber ele havia me dado. Foi um dos encontros mais emocionantes de minha vida! Além de Athos, dentro da azulejaria brasileira cito Paulo Rossi Osir, fundador da Osirarte - empresa seminal para a azulejaria brasileira - e Burle Marx, artista múltiplo em criador de painéis apaixonantes. Há também um grande artista português que me correspondo frequentemene, Eduardo Nery. Em nossas conversas tenho a oportunidade de aprender muito com um artista tão completo.
Em outras áreas que não a azulejaria tenho grande admiração pelos designers de capas de discos como César Vilela (gravadora Elenco) e Reid Miles (gravadora Blue Note); a obra conceitual de Sol LeWitt; os artistas construtivos brasileiros como Geraldo de Barros, Antônio Maluf, Hélio Oiticica, Luis Sacilotto entre tantos outros. Há também os artistas que realizaram em Belo Horizonte obras públicas que até hoje se mostram atuais e são grandes referências para mim como Amilcar de Castro, Franz Weissman, Gianfranco “Cerri”, Mário Silésio e Ricardo Carvão Levy, este ultimo um amigo.

Você poderia fazer um breve resumo da azulejaria no Brasil
Desde que comecei meu trabalho com os azulejos percebi claramente que a azulejaria brasileira tem uma identidade única. Sou um grande defensor deste termo, Azulejaria Brasileira, pois ela se difere de todas as outras, inclusive da portuguesa.
A construção do antigo Edifício do MES nos anos trinta (atual Palácio Gustavo Capanema), no Rio de Janeiro, foi o início desta azulejaria que integrou com perfeição a arte à arquitetura. Inicialmente ligada à arquitetura moderna de Lúcio Costa e Niemeyer esta forma de arte integrada evoluiu com maestria nas mãos de nomes como Portinari, Burle Marx e Paulo Rossi Osir e encontrou em Brasília o seu ápice. Neste momento revela-se o nome de Athos Bulcão que com imensa simplicidade revestiu toda uma cidade em contraponto à frieza do concreto armado.
A partir do final dos anos setenta houve uma significativa redução da utilização dos painéis de azulejos como elementos artísticos integrados. A arquitetura moderna estigmatizada, a baixa qualidade dos azulejos, a escassez de executores e a chegada de novos revestimentos podem explicar este desuso. Entretanto, a chegada dos anos 2000 viu um renascer dos painéis de azulejos como elemento de profunda contribuição ao espaço arquitetônico. Em anos mais recentes novos arquitetos e artistas percebem o grande legado oferecido pelas gerações anteriores e buscam continuar esta arte que propõe função técnica como revestimento, expressão plástica – harmônica com o espaço e autônoma como arte – e, principalmente, dar ao cotidiano das cidades a arte ao alcance de todos.

Como você descreve sua obra?
Integrar harmonicamente os painéis de azulejos ao espaço arquitetônico buscando explorar a percepção sensorial dos expectadores e propiciar um cotidiano mais gentil para a cidade e seus cidadãos. Para isso, utilizo elementos geométricos simples como módulos autônomos que em livre combinação com seus pares revelam o ritmo e movimento da obra. A maioria dos painéis são finalizados com plena liberdade pelo pedreiro azulejista a partir de regras simples.

Que obra sua, você considera a mais importante?
Os painéis da Praça da Pampulha, em Belo Horizonte, pelo desafio de criar uma obra que se situa no complexo arquitetônico da região e, ao mesmo tempo, integrar um projeto onde a tônica é o vazio. Para esta obra utilizei o conceito do ar. Traríamos que flutuam ou se movimentam com o vento como pétalas de flores, asas de pássaros, cata-ventos...

Como você descreve o mercado de arte em Belo Horizonte?
A minha relação com o mercado de arte é bem diferente. Minhas obras até hoje não estiveram em galerias ou leilões. Em parte por escolha e em parte por falta de adequação. A arte integrada à arquitetura está mais ligada aos arquitetos e construtores do que, necessariamente, aos colecionadores de arte. Esta é uma questão que venho trabalhando com o passar do tempo e ainda não tenho uma resposta pronta, definitiva. Há pouco tempo comecei a desenvolver painéis de azulejos emoldurados que são estudos ou azulejos originais de uma obra realizada. Desta forma consigo apresentar minhas obras àqueles que não tem, necessariamente, uma parede para revestir. Em resumo, desde meu inicio tive que desenvolver , ou mesmo inventar, uma forma de atuar no mercado buscando atingir meus objetivos.

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
Acho que o principal estímulo vem da música. Sempre que sento para criar a música é parte integrante do processo. Inevitavelmente o resultado dos painéis tem muito a ver com a música que ouvi durante o processo. Estilos musicais diferentes produzem paineis distintos. Quando ouço o jazz Avant Garde de Ornette Coleman ou John Coltrane, por exemplo, o resultado tende a ser mais complexo e um pouco mais tenso, com uma desorganização controlada. Por outro lado, quando ouço a música minimalista de John Cage ou Phillip Glass o resultado tende a ser mais leve e e com mais vazios.
Aliás, esta ligação com a música está rendendo um fruto que há muito tempo desejava. Junto a dois músicos daqui de Belo Horizonte comecei a compor uma peca musical onde a partitura é o próprio painel de azulejos. Esperamos apresentá-la no começo do ano que vem.

Você tem uma rotina de trabalho?
Tento ter uma rotina que aumente a produtividade, pois alem de criar os desenhos também executo os painéis em meu ateliê, atendo os cliente, atualizo meu site e tudo mais. Normalmente vou ao ateliê de manhã bem cedo e à tarde vou para meu escritório onde fico ate o inicio da noite. O mais precioso para mim é o momento de criação. Preciso de toda concentração e dedicação possíveis! Pode demorar uma hora ou dois dias, não importa... tenho que estar plenamente envolvido, sem ser interrompido. Chega a ser desgastante, mas sempre muito prazeroso.

Quais são seus planos para o futuro?
Escrever um livro sobre a azulejaria brasileira, trabalhar com crianças e escolas.... e claro, realizar obras importantes. E criar, criar e criar! Sinto que estou em meu inicio e com muita humildade e paixão quero construir uma carreira bonita e muito sincera.

O que você faz nas horas vagas?
Sou musico também. Não é uma carreira profissional, mas um hobby levado a sério. Tenho uma banda de country-rock com uma certa expressão no cenário Underground. É uma outra paixão que é parte integrante de minha vida desde a adolescência. Alem disso, adoro tomar uma cerveja com os amigos e passar bons momentos com minha esposa e filha.



Lâmina.


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