segunda-feira, 16 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Alexandre Mury


Alexandre Mury Auto retrato azul cobalto.


Mury conte algo de sua história pessoal.
Nasci em 1976, em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro, onde moro. Sou o filho mais velho de dois irmaos. Artista por vocação, formado em Comunicação Social.

Como foi sua formação artística?
A minha mãe costureira e meu pai carpinteiro e pedreiro me permitiram observar desde muito cedo o uso de muitas ferramentas. Eu achava mágico o poder que eles tinham de transformar e de construir coisas. Mas quando tinha apenas 3 anos de idade uma professora dizia que eu era o Van Gogh dela, o artista dela... Isso não saiu da minha cabeça e fui me interessando cada vez mais por desenho e pintura. Ainda criança já era conhecido em toda a escola como desenhista.
Na adolescência, com 16 anos, fiz minha primeira exposição de desenhos, era uma individual na biblioteca municipal da cidade de São Fidélis, minha cidade natal. Os trabalhos eram todos imitações de artistas que nunca me preocupei em saber o nome ou qualquer outra referência. Eu simplesmente tomava a liberdade de usar o que apreciava como referência para reconstruir. Como não tinha grana para comprar material para trabalhar eu substituía as aquarelas por anilina, os óleos por guaches, os pastéis por lápis de cera, o carvão para desenho por carvão mesmo daqueles de fogão a lenha... Isso tudo fez parte do começo da minha formação, a experimentação foi importante para o desenvolvimento das habilidades técnicas e manuais.
Com o tempo fui buscando mais informação, mas o acesso sempre foi muito precário numa escola pública numa cidade do interior, biblioteca precária e não havia internet. Mais tarde tive que trabalhar para pagar a faculdade de Comunicação Social que eu achava que teria mais a ver com minhas habilidades artísticas e criativas e estava mais próximo da cidade onde eu morava. E na verdade meu sonho era cursar cinema e eu não tinha condições financeiras para sair da minha cidade. Na universidade, passei por uma verdadeira transformação e comecei a me interessar mais sobre o que era arte e o que não era naquilo que eu fazia. Estava ficando frustrado com minha capacidade de ser artista. Me entreguei a atividade do design gráfico que me sustentava mas nunca deixei de experimentar coisas, de produzir coisas sem utilidade e sem propósitos claros.
Desde meus 16 anos já fazia meus autorretratos e aos poucos o desenho, a pintura, a escultura, a performance estavam se misturando e virando objeto da fotografia. O desenho e a pintura serviram para aprender a compor e equilibrar. Outras habilidades, como a de cenografia, iluminação e figurino também foram explorados desde o começo. A fotografia foi exigindo de mim a performance teatral e a necessidade de vencer a timidez. Sem encontrar modelos dispostos para posar para minhas idéias, e quando os encontrava não me satisfazia o resultado na capacidade de interpretação. Era por isso que me fotografava, mas não sabia por que me fotografava.
A fotografia me fez amadurecer como artista num processo despretensioso, divertido, descompromissado. A minha história com a arte envolve todas as minhas experiências de vida. Aos poucos fui reconhecendo que meu gosto e minhas preferências foram configurando uma estética peculiar e as sucessivas abordagens aos temas universais foram incorporando os questionamentos filosóficos. O uso da auto-imagem não era mais por acaso a medida que fui tomando consciência dos meus conflitos internos, da transformação do corpo e o convívio social. O “outro“ passou ter mais importância do que o “eu”, assim como eu podia ser qualquer um, qualquer um podia ser aquele que eu representava. Percebi que podia sugerir que o outro se visse em mim.
Estou sempre encenando o icônico e o pano de fundo do meu trabalho é a ressignificação através da recontextualização. Meus impulsos são críticos, irônicos, cínicos, irreverentes e reverentes, paradoxais e questionadores mas conservando a essência de menino curioso e brincalhão o que me permite acreditar que ainda não estou formado. Ainda não me sinto seguro sobre o que é e o que não é arte. A arte tem me formado como pessoa... mas ainda não sou uma pessoa formada em arte.

Que artista influenciam seu pensamento?
Aprecio muitos artistas que aparentemente não tem nada a ver com o que faço de escultores a escritores. Se o que me firmou como artista foram os autorretratos, o primeiro a exercer influencia nisso tudo foi o Van Gogh, depois a Frida Kahlo dois grandes artistas que se autorretrataram muitas vezes. Depois fui aprendendo muita coisa observando muitos Cânones da pintura passeando por todos os períodos da história da arte.
O meu processo de formação não foi sistemático e minha busca por um estilo ou o que eu pudesse me encaixar nos "ismos" da arte só serviu para incorporar um pouco de cada coisa. A cultura popular, a mitologia, a poesia, a art pop, a publicidade e tudo que vivencio incorporo na minha obra. Admiro muitos fotógrafos, e principalmente os pintores. E não há como negar a presença de elementos do cinema e do teatro na construção de minhas fotografias.
Tive muita influencia de autores que não são necessariamente artistas. Muito dos meus questionamento vieram das idéias contidas em alguns livros que por acaso mexeram com minha consciência. Não foi uma busca voluntária, como pesquisa para minha produção. Simplesmente deixaram marcas profundas naquilo que realizo. Posso citar alguns que estou lembrando agora: O império do grotesco, Antropológica do Espelho ( Muniz Sodré ); História da Sexualidade ( Michel Foucault ); História da Beleza, História da Feiúra, A Vertigem das Listas ( Umberto Eco ); O Homem e Seus Símbolos ( Carl Gustav Jung ); Da Sedução ( Jean Baudrillard ); O erotismo ( Georges Bataille ); Modernidade e identidade, (Anthony Giddens)
É muito difícil arriscar uma lista de artistas, minha referência não é direta, cada um tem muito ou alguma coisa que me influencia. Aqueles que estou lembrando agora são: Velásquez, Caravaggio, Jacques Luis David, Chagall, Botero, Franz Von Stuck, Gustave Courbet, De Chirico, Gustave Doré, Ernst Ludwig Kirchner, Ingres, Bernini, Antonio Canova, Magritte, Salvador Dali, Willian Blake, Vemeer, Peter-Paul-Rubens, Monet, Millais, Alma Tadema, Bouguereau, duchamp, Man Ray, Jeff Koons, Banksy, Helio Oiticica, Nelson Leirner, Cildo Meireles, Nuno Ramos, Olaf Breuning... tem muito de Robert Mapplethorpe, joel peter witkin, Jan Saudek, Irina Ionesco, Erwin Olaf, Nobuyoshi Araki, Tseng Kwong Chi, Annie Leibovitz, David LaChapelle, Pierre et Gilles, Orlan... Alguma coisa Almodóvar, Pasolini, Stanley Kubrick... Fernando Pessoa... Carlos Moreno, Chico Anysio... François Sagat... Nietzsche... Björk... etc.

Como você descreve sua obra?
Não me sinto muito confortável com o rótulo de fotógrafo. São tantas coisas envolvidas, todo processo antes da realização do "click" é muito importante. Acredito que muita força do meu trabalho está em tudo que intervenho, na construção de cada detalhe. Cuido do figurino, maquiagem, cenário, iluminação e ainda tem toda carga performática na atuação. A fotografia pode ter muitos desdobramentos e possibilidades técnicas, expressivas, discursivas... eu penso a fotografia como um desenhista e um pintor... mas também como um ator e um diretor de arte.
Além de todo tratamento estético, existe um esforço muito grande para construir uma comunicação com o espectador através de um discurso crítico. Todo simbolismo dos elementos que tem lugar comum no imaginário coletivo é recontextualizado para questionar paradigmas. As minhas referências não são meramente estéticas, eu busco um paralelo e um comentário visual nas releituras. Minhas obras não são enigmáticas mas resgato muitas informações que os conhecedores da história da arte apreciarão outros níveis ou camadas de informação.
Mas em muitas obras sou mais explícito na provocação do debate relacionado a temas como sexualidade, política e religião que pode trazer algum desconforto para algumas pessoas. Mas me preocupo em manter os limites. Não quero ser desrespeitoso. Estou sempre me apoiando no humor que é uma forma simpática de suavizar muitos temas extremamente sérios. O que faço está livre para interpretações, não quero afirmar nada, apenas exercitar a possibilidade de se colocar no lugar do outro ou de rever o significado das coisas. Sobretudo, me divirto. Quem apreciar poderá rir e tentar imaginar cada experiência. A fotografia é, para mim, um suporte para infinitas possibilidades.
Por muito tempo fui usando câmeras emprestadas de amigos. A falta de grana me fez inventivo, também, na produção. Virou uma característica na minha obra. O que no começo era uma mera substituição, uma gambiarra virou um recurso com respaldo teórico e aprofundamento discursivo.
Sou formado em comunicação Social e sempre me preocupei em separar o artista do publicitário. Talvez meu trabalho de arte ainda lute contra a estética perfeita e irreal da publicidade. Não uso estúdio ou iluminação profissional, não tenho assistentes profissionais. A maioria das minhas fotos procuro realizar sozinho, exceto, casos onde não consigo me locomover a tempo de posar antes que o timer acione o disparador ou coisa parecida. O tripé me permite realizar enquadramento e toda programação para a captura da imagem e as vezes peço alguém que obedeça meu comando de voz para pressionar o dedo. Sempre realizo um seqüência de fotos para depois serem editadas. O conceito de "instante decisivo" que por muitos anos ficou ecoando na minha cabeça, nunca foi, na prática, uma orientação para meu trabalho. Pois levo horas, dias ou meses para realizar uma foto. E repito muitas vezes até sair como desejo. A maioria das fotos são feitas em casa com ajuda da, mãe, irmã, sobrinhos ou amigos.
O improviso não é só uma coisa de bastidores, muitos detalhes estão propositadamente em cena. Cuido para que tudo esteja sob meu controle. Nada impede que com mais recursos eu continue garantindo uma linguagem só minha, mesmo com auxílio de outros profissionais. A minha consciência estética não é algo imutável mas há uma consistência no estilo que amadureceu em muitos anos de experimentação.


Você tem rotina de trabalho?
Detesto rotina. Mas pesquiso regularmente história da arte em livros e internet, vivo catalogando imagens. Vou muito à mercados populares e coleciono objetos kitsch. Sou muito intenso e trabalho o tempo todo. Minha vida é meu trabalho e meu trabalho é minha vida. Do entretenimento às obrigações burocráticas, às necessidades físicas e biológicas, à espiritualidade, às relações de amizade, afetos e desafetos… tudo isso me influencia e inspira novos temas e projetos. Meu envolvimento emocional é muito intenso, sempre vivi para a arte e agora vivo de arte. A rotina não tem a ver comigo…me permito tentar fazer a "mesma coisa" diferente, sempre.

Você escreve sobre seu trabalho?
Eu tentei escrever mas achei desastroso. Meu trabalho é um comentário visual. Minha obra é questionadora, não posso responder ou afirmar nada. Tudo que proponho é um convite à reflexão suscitando as possibilidades de leituras variadas. Tudo que quero é promover o debate a partir da minha obra. Mas acredito que vou conseguir escrever sobre muitas coisas que poderão contribuir e ampliar o entendimento daquilo que proponho. Responder a esta entrevista já é um exercício e também fornece dados biográficos clarificadores.

Além dos estudos sobre arte, o que serve de inspiração?
Estou sempre visitando o canônico, o emblemático, o icônico, o simbólico... Adoro provérbios, ditados, máximas, aforismos, poemas, contos, folclore, mitologias, lendas, correntes filosóficas, classificações e rotulações. Adoro listas e colecionismo, adoro estatísticas de popularidade. Adoro paradigmas, gambiarras, reaproveitamento, reutilização…

Você participa de uma exposição na Galeria Laura Marsiaj, o que representa para sua carreira?
Para mim foi uma grande surpresa. Eu tive a sorte de ser descoberto pelo Afonso Costa, um experiente Marchand carioca que acompanhou por alguns anos meu trabalho de fotografia e me disse logo no início que era muito bom. Mas eu não me sentia seguro para mostrar como obras de arte. E ele mostrou meu trabalho para os dois maiores colecionadores do Brasil. O que veio me legitimar como artista foi quando mostrei meu trabalho de "fotógrafo" para Joaquim Paiva, um dos maiores colecionadores de fotografia do país, o primeiro a comprar um trabalho meu em 2010. No mesmo ano o Gilberto Chateaubriand, também adquiriu várias obras e me incluiu na mostra que reuniu suas aquisições para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Hoje o MAM tem cerca de 40 fotografias minhas, através da coleção do Gilberto. Durante dois anos, o Afonso apoiou minha produção e me apresentou para várias pessoas do meio artístico que eu era completamente distante. outros importantes colecionadores também adquiriram meus trabalhos. Estar em coleções importantes me abriu muitas portas. E a minha produção sempre foi constante, uma vivência intensa me permitiu construir uma historia como artista o que permite entender que nada acontece de uma hora para outra. Logo surgiu a oportunidade para expor numa ótima galeria, a Laura Marsiaj. É fundamental para um artista ter uma galeria que o represente. O Afonso costa, marchand associado, que me apresentou para a Laura e hoje os dois me representam no Brasil e no exterior. Já tenho vários trabalhos meus fora do país. Não só colecionares de arte importantes, mas também, colecionadores da minha obra, já que freqüentemente compram novos trabalhos. Estou muito feliz por poder viver de arte, hoje em dia, já que sempre vivi para a arte. Só tenho que agradecer a todos que acreditaram na minha ousadia.



Exposição na Galeria Laura Marsiaj.


Mury ao lado do colecionador Gilberto Chateaubriand.

É possível viver de Arte no Brasil?
Eu jamais acreditei que poderia viver de arte, acho que uma minoria consegue. A arte sempre foi e para sempre será um artigo de luxo. Investir em jovens artistas está mais acessível e é uma ótima maneira de começar uma pequena coleção. Com a venda do trabalho os artistas conseguem manter sua produção e a introdução destas obras no mercado de arte intensificam e favorecem o desenvolvimento cultural. Eu nunca fiz meu trabalho com a intenção de vender. O mercado de arte está aquecido e o Brasil é um grande expoente no cenário internacional. Aumentou muito o número de Galerias no Brasil inteiro e também aumentou o número de cursos de arte. Acho mais importante me concentrar na poética das minhas imagens do que no mercado de arte. Tive a sorte de ser acolhido. Nem todos gostarão, eu sei que meu trabalho incomoda ou não agrada aos olhos de todos. Mexo com temas polêmicos e isso já traz grande chance de recusa. Não pretendo agradar a todos. Fico muito feliz com a aceitação até agora, com ótimos resultados e excelente repercussão. Só quero continuar trabalhando, aprendendo e desenvolvendo minha arte. Só quero poder trabalhar com aquilo que mais amo com muita tranqüilidade. Meu trabalho não ganhou apenas o mercado de arte, em vários estados brasileiros muitos professores de artes estão usando minha obra como referência. E eles vem me procurar através da internet e acompanham o que estou produzindo e publicando. Me sinto valorizado e reconhecido.

Quais são seus planos para o futuro?
Construir um ateliê para trabalhar.

O que faz nas horas vagas?
Gosto de visitar museus, galerias, igrejas, cemitérios, livrarias, bibliotecas, mercados populares, manifestações folclóricas, rodoviárias, camelôs, brechós, shoppings, cinema, bancas de revista... coleciono brinquedos, adoro experimentar sabores, odores e texturas, ouço todo tipo de música. Fico muitas horas na internet, adoro viajar, caminhar, subir montanhas, entrar na mata, tomar banho de cachoeira. Brinco com animais de estimação, adoro conversar com amigos. Considero tudo isso parte do meu trabalho.



Abaporu (2010)



Anástacia (2010)



Cristo Redentor



Francis Bacon





Iacuris // Jazz (2011)



Nick Botton (2011)



Saci (2011)



O Nascimento de Venus (2010)



No blog http://alexandre-mury.blogspot.com encontraremos outras imagens e o texto Um mundo reinventado escrito por Luiza Duarte para a exposição realizada na Laura Marsiaj.

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