quarta-feira, 18 de julho de 2012

Marcio Fonseca entevista Jozias Benedito


Jozias Benedicto


Jozias Benedito começou jovem em seu aprendizado da arte, mas a neccessidade de sobrevivência levou-o a outros caminhos. Ao retomar a carreira, incorporou as vivências acumuladas e dedicou seu tempo ao estudo da arte e à produção de desenhos e pinturas. Jozias é ainda escritor e editor de livros de arte. Obrigado pelo seu rico depoimento.

Quem é Jozias Benedicto?
Nasci em São Luiz do Maranhão, onde morei até os 16 anos. Vim estudar no Rio e aqui fiquei até hoje, com um breve intervalo de 4 anos quando morei em Brasília, por motivo de trabalho. Desde cedo me interessei por artes visuais e por livros, sou um consumidor voraz de material impresso desde a coleção do Thesouro da Juventude que ganhei dos meus pais e na qual aprendi a ler e a ter prazer na leitura; isso quando não estava desenhando com carvão nos muros brancos de minha casa. Sou também um colecionador, na verdade um acumulador de coisas, desde os álbuns de figurinhas da infância, as embalagens e rótulos da adolescência... e tudo isto e muito mais me acompanha e faz parte do meu trabalho.

Como foi sua formação artística?
Bem jovem, estudei arte com Ivan Serpa, Anna Bella Geiger, Rubens Gerchman e outros professores. Na época o mercado de arte no Brasil era incipiente e o retorno muito irregular, assim tive que me dedicar profissionalmente a outras atividades, na área da tecnologia de informação, mantendo sempre minha ligação com a arte e meu convívio com artistas. A partir de 2002 consegui ir reorientando minhas prioridades, e retomei a rotina de ateliê e as aulas no Parque Lage, com John Nicholson, José Maria Dias da Cruz, Fernando Cocchiarale, Bob N e Márcio Botner, Katie van Scherpenberg, Gianguido Bonfanti, Malu Fatorelli, João Magalhães. Em 2010 fiz um curso de Filosofia e Arte Contemporânea, na PUC, com a Noélli Ramme. Hoje faço aulas com João Magalhães e Suzana Queiroga, e estou descobrindo a gravura, em aulas com o João Atanásio, tudo no Parque Lage.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Minha influência maior certamente foi o Ivan Serpa, pela liberdade e multiplicidade, acho que o Ivan tinha um pensamento muito à frente do tempo que ele viveu e por isso foi criticado, vejo hoje que características da obra dele que se encerrou em 1973 são totalmente compatíveis com o pós-modernismo e a arte deste terceiro milênio. Anna Bella também me influenciou muito, mostrando a necessidade da pesquisa e investigação teórica, da atualização constante e uma visão crítica do circuito e do mercado. E o Gerchman me mostrou a liberdade de pintar, o gesto solto, o “sem medo de ser feliz”, em balancear o conceito com o gesto, a emoção. Além destes três com os quais tive a felicidade de conviver, de receber diretamente os ensinamentos, muitos outros artistas me influenciam através da obra e/ou dos escritos: Sigmar Polke, Gerhard Richter, Anselm Keiffer, Arnulf Rainer, Georg Baselitz, Martin Kippenberger, Albert Oehlen, Miquel Barceló, Guillermo Kuitca, Ross Bleckner, Julian Schnabel... Entre os não contemporâneos, Max Ernst, Joseph Cornell, Caravaggio... Andy Warhol, claro, e em termos de pensamento é impossível deixar de citar Duchamp.

Como você descreve sua obra?
Trabalho principalmente em pintura e desenho, o desenho para mim não é uma preparação para a pintura e sim uma forma de expressão autônoma. Trabalho em séries, com obsessões, com motivos que vão e voltam; em camadas tanto de sentido como de construção de cada trabalho; uso elementos da História da Arte, do kitsch gráfico e religioso, do porno-kitsch, da arquitetura modernista (piscinas, trampolim de Icaraí, belvedere da estrada Rio-Petrópolis). Trabalho estes elementos todos e incorporo muito do acaso, do processo, da feitura, e também a diversidade de procedimentos – em um mesmo trabalho o matérico-expressionista em um rosto, um autorretrato?, paira sobre uma forma geométrica chapada metálica ou um espaço onde a tinta se liquefaz em aquarelados... Entendo como uma descrição de minha obra: embates entre procedimentos de pintura, entre camadas de pensamento, entre imagens de um passado-imaginado e um futuro-ruína. Tudo ao mesmo tempo agora, mas não como só como expansão e também como entropia.

Que exposição sua você considera a mais importante?
Em 1981 fiz minha primeira individual na Galeria Macunaíma, da Funarte, nesta época ainda não se falava tanto, no Brasil, em curadoria, em geral os artistas montavam suas exposições simplesmente agrupando trabalhos. Como eu vinha de uma discussão muito importante no grupo de estudos com a Anna Bella Geiger, procurei fazer uma exposição que tivesse um conceito, uma história, um título, e que fosse mais que a soma dos trabalhos (desenhos, xerox, cadernos). Ficou uma exposição bem amarrada e que teve bons comentários. Mas não sou saudosista, gostei muito mesmo de minha participação na coletiva do FaceArte no Largo das Artes em fevereiro deste ano, fiz uma montagem de 35 pequenas telas da série “Polkianas”, com a curadoria de David Cury, Letícia Tandeta e Ursula Tautz.

Como você descreve o mercado de arte no Brasil?
Acho que existe no Brasil um mercado potencial muito grande para arte. Mas também acho que há deficiências no circuito de arte atual que dificultam a incorporação deste mercado potencial. Tivemos um exemplo positivo muito importante agora, a ArtRio, que mostrou que existe um público novo que, sendo motivado, comparece. Já nos anos 1970 se falava em formas de ampliar o mercado, foi quando se começou a falar de múltiplos, gravuras com tiragem ampla etc., mas na realidade a coisa não evoluiu muito. Acredito que, satisfeitas as necessidades básicas – habitação, alimentação... – as pessoas se voltam para outros valores, e é aí que, com um trabalho constante de educação e divulgação que se pode ampliar o mercado.

O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
Creio que o mais importante é ter um trabalho sério, produção constante e consistente e uma boa verbalização sobre seu trabalho, além de paciência para esperar as coisas acontecerem. E uma coisa que acho muito importante também é relativizar isso, estar em uma galeria não é um fim, é apenas um meio, não é uma garantia de sucesso, sem o trabalho sério não adianta ser representado pela melhor galeria que os resultados não virão.

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
Procuro sempre ver exposições, ler revistas e livros de arte, visitar ateliês de artistas, participar de grupos de discussão. Esta vivência como que me mantém ”em sintonia”, ligado, e dentro desta sintonia os estímulos são os mais diversos, até banais: uma cena de rua, uma paisagem, uma foto de jornal, um filme, um sonho... estes estímulos são como processados em minha cabeça por um “liquidificador interno” e se impõem para retornar para o mundo já como partes de meu trabalho; a maioria das vezes o resultado final só tem referências tênues ao estímulo inicial, o processo é uma coisa meio mágica.

É possível viver de arte no Brasil?
Como disse antes, quando comecei a me dedicar a arte o mercado era muito restrito, nesta época quem queria ser artista precisava antes fazer uma faculdade em outra área como garantia, foi o meu caso e de muitos outros artistas. Hoje há uma consolidação nos cursos de arte, e a possibilidade de uma carreira acadêmica – bons cursos, mestrado, doutorado, que levam a bolsas etc., tudo isso possibilita aos artistas que eles atuem em profissões ligadas a arte em paralelo ao desenvolvimento de seu trabalho artístico, o que torna mais viável viver de arte.

Você tem uma rotina de trabalho?
Não tenho uma agenda muito organizada, nunca tive, mesmo quando trabalhei em escritório. Hoje, a parte mais fixa de minha agenda são os cursos, o resto do tempo eu vou programando quase que semana a semana ou dia a dia, e comigo este esquema funciona bem, dou conta de tudo (ou quase tudo). Sou muito noturno e também muito envolvido, quando estou motivado para uma tarefa – uma série de pinturas, a revisão de um texto - não sinto sono e rendo muito bem nas madrugadas. Hoje meu ateliê é em um espaço em meu apartamento, e isso facilita esta esquema meio desorganizado, às vezes subo para o ateliê às 10 da noite e acabo apagando lá mesmo. Em outubro estarei mudando para um ateliê novo, nas instalações da antiga Fábrica Bhering, e isso vai me obrigar a trabalhar com uma agenda mais estruturada. Gosto muito de estar no ateliê, mesmo não trabalhando: pensando, olhando trabalhos antigos ou em processo, consultando meus estudos ou anotações, lendo ou olhando as reproduções de livros de arte, ouvindo música. Sempre desenvolvo vários trabalhos ao mesmo tempo: telas pequenas, telas grandes, desenhos... e retomo muito trabalhos antigos, “remixando-os”.

A mulher e o homem estão em pé de igualdade no mercado de arte?
Hoje certamente que sim, antigamente talvez não. Nos anos 1980 falava-se de galeristas que não queriam trabalhar com artistas que fossem mulheres jovens, achando que elas iriam casar, ter filhos e com isso comprometer sua produção; preconceito que hoje seria impensável. No entanto, registro que ainda hoje há um preconceito em relação a idade, por incrível que pareça há salões ou processos seletivos onde se estabelece, explicita ou veladamente, idade máxima, mesmo isto sendo um preconceito até mesmo inconstitucional.

O que você pensa sobre os Salões de Arte?
São importantes para os artistas jovens mostrarem seu trabalho. Porém acho que se tornaram muito regionalizados, municipalizados, faz muita falta um evento como foi o Salão Nacional, com foco e abrangência maior.

Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte?
Importantíssimas, cada uma no seu papel, Bienais no sentido mais institucional e as Feiras voltadas para o mercado. O que temos visto nos últimos anos é um esvaziamento do formato Bienal, especificamente no caso da Bienal de São Paulo, crise que atingiu seu ápice na Bienal do Vazio. Acredito que na verdade um esgotamento de um modelo histórico onde estado/iniciativa privada se reuniam para mostrar o melhor, avalizar, um modelo muito bonito e que funcionou bem nos anos 1950-70. Hoje, eu realmente vejo como mais interessantes as Feiras, onde não há disfarce: as galerias, o mercado, comandando.

Como é sua experiência com a galeria virtual?
Sou representado no mercado por uma galeria de arte virtual, a FaceArte, e minha experiência com esta galeria é muito boa, tenho conseguido colocar meus trabalhos com bom retorno, e há uma preocupação das galeristas em veicular os trabalhos não só através da internet mas em eventos no mundo real, como foi a exposição realizada no Largo das Artes (Rio) em fevereiro, com excelente repercussão. A tendência contemporânea de alavancar negócios através das redes sociais só tende a crescer, e na verdade eu não acho nada estranho ter um galerista virtual, até acho que, em pleno terceiro milênio, estranho é ficar preso a esquemas de mercado de arte do tempo dos impressionistas.

Além de pintura, você é escritor e agora o coordenador da publicação dos livros de arte de uma editora, como você vê essas duas atividades?
Minha visão de mundo é predominantemente visual, me defino como um artista visual, mas também sempre fui muito ligado à palavra, sempre gostei de escrever. Em 2004 iniciei meu blog, como um registro das exposições que via, do meu trabalho, dos livros lidos e filmes que assistia. A partir do blog, que conseguiu uma boa penetração para um trabalho meio que amador, fui convidado a escrever textos sobre o trabalho de artistas amigos para suas exposições, o que já foi um grande desafio, e também chamado pela Editora Apicuri, uma editora pequena sediada no Rio de Janeiro, a ser um dos coordenadores de uma coleção de textos sobre arte, a coleção Pensamento em Arte. Com isto, veio a necessidade de aprimorar minha escrita, faço um laboratório de vivência literária com o escritor Luiz Ruffato e me exercito escrevendo ficção. Para mim, estas atividades se somam, poder escrever sobre o trabalho de outro artista é um exercício que aumenta minha compreensão do meu próprio trabalho. E trabalhar na edição da Coleção me obriga a ler muito, a acompanhar defesas de dissertações, debater com autores sobre seu pensamento e estar sempre atento às discussões sobre arte, vejo que tudo isso se reflete positivamente sobre meu trabalho como artista e sobre minha vida.

Quais são seus planos para o futuro?
Este ano, 2011, está trazendo a concretização de muitas coisas que planejei, e isto me deixa mais otimista para projetar o futuro dos próximos anos. Em 2012 pretendo ter publicado mais 4 ou 5 títulos da Coleção Pensamento em Arte, trazendo questionamentos importantes para a discussão do fazer arte na contemporaneidade. E em relação a meu trabalho em desenho e pintura, meu plano é continuar trabalhando muito, com o espaço maior do novo ateliê me permitindo ampliar a escala das pinturas, e formando um corpo de trabalho homogêneo e de qualidade. Planejo também divulgar mais meu trabalho, para com ele atingir um público maior.

O que você faz nas horas vagas?
Por incrível que pareça tenho poucas horas vagas, meu tempo é bem tomado com aulas, rotina de ateliê, leituras relacionadas a arte ou ao meu trabalho como editor, visita a exposições... sem contar, claro, as atividades físicas, tenho aulas de natação e faço caminhadas e pilates, ufa! Mas acho que a melhor ocupação das horas vagas, o que me faz “apertar” minhas atividades rotineiras, é estar com amigos. Quando a isso não tenho queixas, tenho um maravilhoso grupo de amigos!



A Serpente (2005) Pintura sobre livro Thesouro da Juventude



Uma Vanitas com 4 de Ouros (2006)


Trampolim XXVI (2010)


O Rapto da Europa (2010)


Para Quem Quer Me Seguir (2010)


Trampolim XXVII (2010)


Usina Nuclear (2010)



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