segunda-feira, 23 de julho de 2012

Marcio Fonseca entevista Jaquelline Vojta.



Perfeito é Não Quebrar a Imaginária Linha


Até que o Céu Caia Sobre Mim.



Beautiful




Paisagem Imaginante





Um Punhado de Estrelas no Infinito Irei Buscar.













Jaqueline você poderia contar um pouco de sua história pessoal?

Nasci em Petrópolis, Rio de Janeiro em 14 de março de 1966.Meus pais trabalhavam na área textil, foi assim que se conheceram. Em 1964, meu pai que era técnico téxtil montou seu próprio negócio numa pequena tecelagem chamada Primatex. Meu pai era imigrante Tcheco, que chegou ao Brasil 1955, fugindo do regime comunista no Leste Europeu. Minha mãe é brasileira. Eu sou formada em Economia pela PUC-RJ e trabalhei com meu pai de 1988 a 1998, quando ele faleceu . Foi nessa época que eu comecei a trabalhar com Arte.

Qual foi sua formação artística?

Em 1977, eu comecei a frequentar a Escola de Artes Visuais do Parque Lage sem nenhuma ambição. Um dia, me encontrei com Nelson Leirner no café da escola, e a nossa conversa despertou um lado meu que eu nem sabia existir. Fiz a matrícula no curso dele e durante o período que lá estive, ele puxou muito por mim e faz o mesmo até hoje. Naquela época, eu não conhecia bem arte e não entendia como funcionava, e não compreendia o que eu fazia que chamava atenção. De repente, a coisa aconteceu de tal forma e eu percebi não poder mais viver sem aquela experiência e fui buscar esse caminho. Fiz um curso na EAV do Parque Lage, que só aconteceu naquele ano, chamado Arte Produção e Conceito. Em seguida, começei a participar de exposições. No fim de 2000, busquei uma formação mais sólida mudando para Nova York. Lá fiz o Mestrado em História de Arte no Hunter College-City University of New York. e depois trabalhei no PS1/MOMA.

Quando você decidiu ser artista e qual a reação familiar?

Minha família sempre apoiou. Meus primeiros trabalhos, mais "malucos", minha mãe me ajudou a executar. Todos em minha família tinham formação técnica e eu não havia alguém perto que fosse artista. Assim, aquela briga que muitas tem com a família , que não apoia a decisão, por ser a arte incerta e financeiramente arriscada eu nunca tive com meus pais e com meus irmãos, mas tenho comigo mesma até hoje. É o meu maior desafio, pois fui criada para seguir outra carreira. Apesar de minha família estar sempre ao meu lado dando suporte emocional para minhas decisões, o que é incrível, a minha "família interna" não me apoia muito.

Que artistas influenciaram seu pensamento?

Anselm Kiefer por seu engajamento com a história, sua convicção sobre a arte poder curar, sua continuidade com a história da pintura como um meio para relacionar com o mundo, pela união do passado com questões éticas do presente e sua grandiosidade. Eu conheci seu trabalho pela primeira vez numa exposição no MAM de São Paulo em 1998. Naquela época, eu já havia começado a fazer minhas colagens de tecido e pensei poder continuar a fazer isso e ir muito mais fundo. Ele continua sendo até hoje o artista que mais tem impacto sobre meu pensamento.

Você pode fazer um comentário sobre sua obra?

Para alguém que veja meu trabalho, acho importante deixar de lado qualquer teoria ou discurso intelectual sobre arte contemporânea para apreciá-lo. O ideal é somente se conectar com o trabalho, se deixar impregnar por ele e confiar. Eu carrego o passado, a história comigo, mas olho para o futuro, assim não há como encaixar em algo pr´réxistente e definido.
Qual a contribuição para você no período passado no exterior?

A experiência de morar seis anos em Nova York foi incrível. É um lugar muito competitivo o que te leva ao seu limite. Ao mesmo tempo, é muito estimulante pois te coloca em contato com idéias novas, pessoas interessantes e, você é estimulado a ser mais criativo e expressivo. É um lugar onde os desafios e as diferenças são bem vindos. O que eu aprendi, as experiência vividas, a força interna que eu pude desenvolver lá constituem a fundação na qual eu sei que vou me apoiar para sempre, para o trabalho e na vida.

Você é representada por galeria?Sim, pelo Largo das Artes.

É possível viver só da arte no Brasil?

Sim acredito que seja possível. Porém existe todo um sistema de arte que precisa funcionar para a arte cumprir seu papel e chegar ao seu destino, o público. Além da galeria, do museu, do curador, os mais balados, são as outras profissões como professores de arte, produtores, editores culturais, gestores de instituições, conservadores, museólogos, pesquisadores, montadores, designers de exposição, captadores de recursos que sustentam o sistema como peças importantes e ajudam a sustentar o sistema. Sem eles nada acontece. Essas profissões são muito pouco valorizadas e estimuladas como possibilidades de carreira no Brasil. Assim, fica mais difícil para o artista sobreviver de seu trabalho. Quando trabalhei no MoMA, vi que 90% das pessoas que trabalhavam lá haviam passado por uma escola de arte. Ou seja acredito que é preciso estimular estimular essas carreiras como possibilidades nas escolas de arte, para as pessoas que já tem afinidade com a arte, assim como levar o estudo da Arte para outras áreas, onde um número maior de pessoas possam ter contato com ela. Além de formar um novo publico, haverá possibilidade de pessoas seguir essas carreiras.

Qual a importância do Curador?

O curador está entre a produção do artista e o público. De certa forma sempre esteve presente na história. Sua presença já existia junto a outros personagens do sistema de arte como o galerista, o crítico e o diretor de museu. É através das exposições que a arte se torna conhecida. Vemos o papel do curador ter crescido muito, nos últimos tempos, em virtude do grande número de exposições. Além da posição histórica, eu vejo o curador atuar como um autor, as vezes como um artista. Uma exposição é um recorte, onde muitas vezes se apreciam trabalhos individuais e em outras vezes se contempla a exposição como um todo o que levanta questões complexas. A rejeição ou críticas a esse desenvolvimeto não ajuda muito e uma reflexão sobre sua razão de existir é importante.

Existe crítica de arte no Brasil?

Existem pessoas muito bem preparadas, porém não há um sistema desenvolvido para absorver essa crítica, assim ela não acontece. Uma das coisas a atrapalhar a crítica no Brasil é nossa herança cultural. Carregamos o ranso do autoritarismo e da desigualdade. Não cultivamos o igualitarismo e assim não há possibilidade de diálogo e as coisas não são faladas abertamente. Sempre é preciso obedecer à uma autoridade maior. A crítica séria é muito importante para o artista. Ela não tem que ser lisongeira, mas ter um olhar objetivo e fundamental. Não é tarefa fácil nem simples, Guardei uma ótima frase de Jerry Saltz um crítico do New York Magazine: " I love you even if I have write terribles things about you; I hate you even a have to write wonderful things about you. It's all conflict all the way down. This is life I am afraid. Purity and art don't sleep together".

De que maneira você se mantém atualizada?

Eu gosto muito de observar o mundo, viajar, conhecer pessoas com origens e trabalhos diferentes dos meus. Busco informações na dança, teatro, cinema e literatura. Eu leio e pesquiso muito. Gosto de conversar com amigos sobre essas coisas lidas e pesquisadas.

Você poderia citar sua participação em algumas exposições?
Todas as exposições tem para mim um papel importante em termos de reflexão sobre o trabalho em diferentes momentos. As principais em termos de lugar e tamanho foram o Ateliê Finepe- Paço Imperial 2000. Humor Negro no Universo Feminino-Paço das Artes, 2000. Trilhas do Desejo-Itaú Cultural, 2009. Largo das Artes, 2010.

Qual sua avaliação sobre a Arte Contemporânea no Rio de Janeiro?
A produção de Arte Contemporânea brasileira que eu mais conheço é no eixo Rio-São Paulo-Belo Horizonte, ou onde é mais mostrada O Rio tem grandes artistas e tenho a seguinte opinião, e isso é muito claro, na obra do Helio Oiticica, a arte brasileira tem uma sensualidade da forma e uma generosidade com a forma, o que vem do nosso DNA africano, que acredito vir da relação deles com o corpo. No Rio existe um contato muito grande o que seria "arte européia" e nossa herança cultural. Acredito isso se irradia para todo lado, levando fortemente essa característica ou abrindo esse canal para a Arte brasileira como um todo. Sem bairrismo, creio ter o Rio um potencial para se tornar a capital cultural do Brasil. São Paulo já tem uma Bienal muito importante, um mercado forte, uma Feira de Arte que cresce a cada ano. Minas tem Inhotim., e assim também outras coisas podem se desenvolver em outros estados. Nem tudo precisa ser igual em todo canto. Esse aspecto "experimental" que acredito que o Rio carrega poderia ser mais explorado numa política cultural mais ampla.

Quais são seus planos para o futuro?
Eu não faço muitos planos para o futuro, vou levando um dia após o outro. O principal para mim é o meu trabalho e estar produzindo é o que mais conta para mim. É isso que continuarei a fazer.

Jaqueline muito obrigado pela sua participação e por ter dividido com todos suas incertezas e suas opiniões sobre arte

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