quarta-feira, 11 de julho de 2012

Marcio Fonseca entrevista Katie van Scherpenberg

Katie van Scherpenberg

Esperado Papai Fotografia de peformance no Rio Negro.



Ateliê de Katie van Scherpenberg.



Série Fuerbach e Eu. Incidentes. (1995) Coleção Maria Helena Fonseca.


Os seis trabalhos (Incidentes) são pequenas catástrofes em observação _ como se o material em última análise, não fizesse parte da obra, somente a idéia, a clareza do simbólico visual na sua insistente procura de comunhão com o externo a si próprio, e a resultante razão do ato criador. Katie van Scherpenberg, abril de 1995.








Capa do Catálogo da Exposição Mãe, Prometo Ser Feliz. Paço Imperial, 2005.




Serei a Estrela de sua Manhã,


O Sol de sua Praia,


A Lua de sua Noite,


Até que a Loucura


Faça parte da minha vida


Com a Solidão.


Estre cda dente de minha mãe eu grito:


Você me ama? Você me quer?


In and Out, pulsando como um autômato antes do goza.


Vejo-a mais uma vez surpreender um incauto


Com o grande truque do amanhã


Para serví-la melhor e para sempre


MAMÃE PROMETO SER FELIZ. Katie van Scherpenberg, fevereiro 1995.


Ushuia, Argentina. (2005). Intervenção.

A segunda entrevista de Conversando sobre Arte é com a artista e professora Katie van Scherpenberg (1940-) Nasceu em São Paulo. Passou parte de sua infância na Inglaterra, retornando ao Brasil com sua família em 1946 Estudou na Inglaterra de 1953 a 1957. O pai resolveu, depois de um tempo no Brasil, radicar-se no Amapá na Ilha de Santana. Katie estudou pintura no Rio de Janeiro com Catherina Bavatelli (1958-1960). Entre 1961 e 1963, aperfeiçou-se na Academia de Belas Artes de Munique e em Salzburgo, Áustria com Oskar Kokoschka. Entre 1963 e 1964 morou em Nova York. Ao retornar ao Brasil, fez o curso de gravura no Museu de Arte Moderna no Rio de Janeiro. Casou-se em 1964 e teve uma filha em 1965. Em 1967, após a separação, morou na ilha de Santana até 1973 quando retornou definitivamente ao Rio de Janeiro. Em 1971, morreu seu pai e Katie fez seu sepultamento nas margens do Rio Amazonas, local escolhido por ele para morar nos últimos 20 anos. Katie é uma reconhecida artista no Brasil e no exterior tendo participado de inúmeras exposições em galerias e instituições culturais e museus. Participou da Bienal de São Paulo e do MercoSul. Suas obras estão distribuídas em diversos museus e coleções do mundo. Katie tem uma extensa atividade didática como professora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e diferentes Universidades no Brasil e no exterior. O Workshop sobre Materiais é uma marca pessoal e por ele já passaram centenas de alunos.




A sua última exposição no Paço Imperial (1995) recebeu o título Mãe, Prometo Ser Feliz. Você cumpriu a promessa?
Não, pois se tivesse sido feliz não teria realizado a exposição. A felicidade era sobre a vida, sobre o casamento e ele havia fracassado. Os trabalhos foram construídos com peças do meu enxoval. As mães sempre sonham para os filhos uma vida perfeita, mas é impossível.


Você fez uma belíssima performance chamada Esperando papai, uma homenagem a ele. Qual a influência do seu pai em sua vida e obra?
Meu pai teve enorme influência em minha vida. Ele nasceu na Holanda e veio para o Brasil como diplomata e resolveu ficar. Comprou a ilha de Santata no Amapá e lá se radicou em busca de seus sonhos. O espirito aventureiro transmitido por ele, possibilitou a mim ser uma artista, viver em diferentes países, passar por todas as dificuldades afetivas e financeiras, vencer as injustiças e continuar a trabalhar. Papai falou: "Nunca se aposente".


Numa conversa com você, eu contei ter uma amigo que a cada dezembro ao ver a floração do Flamboyant, ele ouvia o Oratório de Natal de Bach. Você comentou: "É preciso percorrer a vida com poesia". Os títulos de sua exposições são sempre poéticos, você vive com poesia?
Creio ser imporante diminuir a distância entre a vida e a poesia. Procuro por essa aproximação quer na vida quer em minha obra.

Um dos seus trabalhos mais importante é A Queda de Ícaro. Qual o significado dele?
A Queda de Ícaro é um trabalho de 1980 feito com gesso e fuligem. Ao terminá-lo, eu tive a verdadeira compreensão sobre pintura. Antes pensava estar ela ligada à posição ou política e ser algo social. Percebi não haver nada com essas coisas, mas um trabalho duro diário e interminável. Entendi o que disse Giacometti: " Não sei sobre pintura, eu pinto".


Você é conhecida e respeitada como uma grande pintora. Como os registros filmados e fotografados de suas intervenções e performances se encaixam com a pintura?
Há mais de trinta anos, eu faço e registro essas intervenções em praias, jardins e rios. Percebi serem eles uma complementação da discussão sobre pintura. Tenho mais de cinco mil registros, os escolhidos para a atual exposição darão ao público uma idéia do trabalho realizado e dessa relação com a pintura.


Katie, parabéns por mais essa vitória. Você deseja fazer algum comentário?
Eu lembrei de minha mãe, ao visitá-la na Europa, ela estava lúcida. Eu muito orgulhosa mostrei todos os catálogos de minhas exposições e contei a ela ao que havia feito em minha carreira. Ela comentou: "Pena que você não casou".




A entrevista com Katie van Scherpenberg foi feita no dia 16 de junho de 2010. A inauguração da exposição Distante / Far Away será dia 17 de junho de 2010 no Paço Imperial com a curadoria de Paulo Herkenhoff.


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